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Vamos falar de minorias? É hora de olhar fora da caixa

Por Léa De Luca




O crescente volume de dinheiro levantado por startups brasileiras nos últimos anos têm sido amplamente festejado pela mídia. Em 2021, foram US$ 8 bilhões até outubro, segundo o Inside Venture Capital. Menos óbvio, porém, é o interessante movimento que vem ocorrendo fora do mainstream.


Muito além da Faria Lima, iniciativas no Nordeste, em favelas e lideradas por mulheres crescem e aparecem no ecossistema de startups.


Em Recife, por exemplo, o Porto Digital (PD) tem sido celeiro de unicórnios – entre eles, algumas fintechs. Segundo Heraldo Ourem Ramos Neto, diretor de Inovação e Competitividade Empresarial do Porto Digital, as bolas da vez são a Aqio e a Insole. Ainda longe de atingir essa categoria, a também pernambucana Mola, voltada ao nicho de correspondentes bancários, acaba de levantar R$ 12 milhões em rodada série A.


O PD têm cerca de 350 empresas que empregam atualmente 15 mil profissionais e apuraram, no ano passado, um faturamento conjunto de R$ 2,86 bilhões. Entre os investidores que já se aproximaram do pujante polo de inovação pernambucano estão o Banco do Nordeste e o Inter. E o Zro Bank, fintech nascida no Estado, acaba de fechar parceria com o PD para resolver uma dor que, aliás, não é exclusividade local: a falta de mão de obra qualificada no segmento.


O PD não vai tomar o lugar de São Paulo, que segue como o maior centro de inovação em fintechs do país. Mas há uma boa notícias: novas iniciativas começam a surgir nas comunidades – e não só em São Paulo, mas também no Rio. Desde o último dia 19/11, a B3 passou a encarar sua primeira “concorrente” em quase 20 anos: a Bolsa de Valores das Favelas.


O empreendimento é uma iniciativa do G10 Favelas, grupo formado pelas dez maiores comunidades do país.


Nas primeiras semanas de atividades, a nova bolsa terá três empresas listadas, selecionadas de um grupo de 18 startups com potencial para realizar ofertas públicas iniciais (IPOs, no acrônimo em inglês) – todas da favela de Paraisópolis, em São Paulo, com cerca de 120 mil habitantes: a Favela Brasil Xpress, o G10 Bank e o Supermercado Brasileiríssimo.


Mas há também três fortes candidatos ao pregão do G10 Favelas vindos do Morro do Alemão, no Rio: o Espaço Democrático de União, Convivência, Aprendizagem e Prevenção (Educap), a Silicon Pay e a Kurandé, fabricante de dermocosméticos com alcance nacional, que, na avaliação de Lima, tem tudo para se transformar na “Natura das favelas”.



Manifesto feminino


Tão necessária quanto a diversidade geográfica e de renda é a de gênero. Em 19/11, Dia Internacional do Empreendedorismo Feminino, um grupo de 30 mulheres que estão à frente de startups brasileiras anunciaram o lançamento do livro Brasil Fintech: um verdadeiro manifesto reivindicando seu espaço e valorizando seu papel no mundo da tecnologia.


De acordo com o Female Founders Report 2021, do Distrito, B2Mamy e Endeavor, dos US$ 3,5 bilhões de investimentos feitos em startups brasileiras em 2020, apenas 0,04% do total foram para startups fundadas exclusivamente por mulheres.


“O que a gente precisa fazer é acelerar o processo de mudança. Não estamos dispostas a esperar o tempo do tempo para as coisas acontecerem”, diz Renata Malheiros Henriques, coordenadora nacional do programa de empreendedorismo voltado às mulheres Sebrae Delas. Segundo Renata, empreender é um desafio para qualquer um, mas no caso das mulheres, a jornada tripla e outras questões culturais agravam o problema. “Precisamos jogar mais luz sobre o debate”.


Parabéns às mulheres que conseguem. De verdade. E que venham mais mulheres, mais lugares e mais empreendedores de todos os cantos desse Brasil.



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Léa de Luca é colunista do Movile Orbit
Léa é jornalista especializada em negócios, economia e finanças, com mais de 30 anos de experiência. Foi repórter e editora em veículos como Folha de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Valor Econômico, Exame, Harvard Business Review Brasil e muitos outros. Criou e edita o portal Fintechs Brasil.