• Redação

A nova lógica da liderança: trabalhar menos para render mais

Tendência de ressignificar a jornada de trabalho já é uma realidade no mundo do trabalho — e os gestores precisam prestar atenção a este movimento




Recentemente, uma importante executiva brasileira publicou uma foto no LinkedIn curtindo uma tarde de sol em pleno dia útil, bem no meio do expediente, sem estar de férias. Expatriada para os Estados Unidos, ela deveria estar no escritório/home office naquele momento. Mas estava num parque temático.


Na legenda da publicação, a executiva contou que na multinacional em que trabalha as entregas de qualidade valem mais do que passar oito horas online, com os botões do Slack ou do Teams acesos. Como o dia anterior havia sido pesado e carregado de reuniões, ela simplesmente não estava "rendendo". Então, desligou o computador e foi fazer um passeio em família, com direito a bolas enormes de sorvete, para recarregar as baterias.


Se até as máquinas esquentam, travam e têm a sua capacidade consumida, por que é que seria diferente com os humanos? Ninguém é produtivo o tempo todo e os bons líderes sabem disso. Quem faz uma gestão encorajadora, confia nas pessoas e não opera na lógica do comando e controle, sabe que as pausas são importantes para saúde física, emocional e intelectual.


E não estou falando do "bio break" expressão da moda que carrega certa ironia por nos lembrar que nosso corpo tem necessidades biológicas. Fazer pausas curtas ao longo do dia, para ir ao banheiro, tomar café ou dar aquela alongada entre uma reunião e outra, é o básico. E técnicas como a Pomodoro (deixo a dica lá embaixo) resolvem isso muito bem.


O objetivo aqui é ir além, mostrando que há uma tendência de ressignificação da jornada de trabalho. Com os índices de estresse e depressão subindo, milhões de trabalhadores relatando esgotamento e a OMS (Organização Mundial da Saúde) classificando o burnout como doença ocupacional, o desafio estratégico dos líderes no pós-pandemia será conduzir times saudáveis, que trabalhem menos, porém melhor.


Como teorizou o ganhador do prêmio Nobel e economista Herbert A. Simon, vivemos a economia da atenção, em que nossa concentração é disputada a tapa por marcas, políticos, artistas, redes sociais e veículos de comunicação. A soma da "infoxicação" com a volatilidade do ambiente de trabalho é uma bomba relógio que deve ser desarmada dentro das companhias. E, para isso, não basta criar programas de saúde mental, é necessário abrir espaço na agenda, dando às pessoas o bem mais precioso da modernidade: tempo livre.


Em seu livro "Essencialismo A Disciplinada Busca Por Menos", Greg McKeown traz o case da Conversations, uma das empresas de marketing que mais crescem em Nova York. Por lá, em resposta ao ritmo frenético dos locais de trabalho, o fundador Frank O'Brien adotou uma prática diferente. Toda primeira segunda-feira do mês, ele reúne os funcionários em uma sala, o dia todo. Celulares e computadores são proibidos, assim como verificar os e-mails.


Esses encontros não têm pauta definida, a ideia é escapar para pensar e conversar. Os clientes foram disciplinados: não adianta procurar ninguém nessa data, porque as pessoas estarão "fora''. Segundo McKeown, o dono desta agência inovadora sabe que sua equipe não conseguirá perceber o que é importante se estiver no looping. "Acho fundamental reservar um tempo para respirar, olhar em volta e pensar. Esse nível de clareza se faz necessário para inovar e crescer. Se alguém não pode ir à reunião porque está muito ocupado, isso me revela que estamos trabalhando com ineficiência ou precisamos contratar mais gente."


Após mapear os níveis de estresse dos empregados, a L'Oréal reformulou os programas de saúde física e emocional. Entre outras ações, liberou dois dias de folga para resolução de questões pessoais. Em entrevista ao podcast CBN Professional, o CEO da L'Oréal, Marcelo Zimet, disse que as empresas devem construir uma cultura flexível, em que as lideranças dêem o exemplo. Ele próprio faz sua pausa: o triatlo. “Me desconecto completamente durante as três horas de treino diário e consigo trabalhar mais leve e com bom-humor.”


Semana de 4 dias


Quando pensamos em oferecer mais tempo aos trabalhadores, inevitavelmente surge a ideia da semana de trabalho com quatro dias. Sugiro às lideranças olharem para esse movimento com seriedade. Na visão de inúmeros pesquisadores, reduzir o expediente é o futuro.


Uma prova disso é o crescimento da organização sem fins lucrativos 4 Day Week Global. Com o apoio de pesquisadores das universidades de Cambridge, Boston e Oxford, a instituição angariou, só neste ano, 38 empresas dos EUA e do Canadá para o seu programa, que auxilia as companhias a implementar um piloto do trabalho de quatro dias, medindo os impactos desse processo na produtividade e no bem-estar dos funcionários.


Neste experimento, em vez de manter as 40 horas em quatro dias, as corporações reduzem a semana de trabalho para 32 horas. Os especialistas chamam isso de modelo 100-80-100: as pessoas recebem 100% do salário por 80% do tempo e mantêm 100% de produtividade.


Em entrevista à CNBC, Joe O'Connor, CEO da 4 Day Week Global, diz que a demanda pelo programa cresceu "exponencialmente nos últimos 12 meses", à medida que as empresas repensam o trabalho num contexto de turnover altíssimo e guerra por talentos. “Minha mensagem para os CEOs de grandes empresas, onde há enorme concorrência: o maior risco não é tentar [a semana de quatro dias] e não funcionar. Seu maior risco é o concorrente fazer isso primeiro.” O desafio está posto, resta saber o que vamos fazer com ele.



Três dicas para complementar a sua leitura:


Método Pomodoro Criado pelo italiano Francesco Cirillo, este método de gestão do tempo usa um cronômetro para ajudá-lo a concluir suas tarefas. Funciona assim: você divide o seu dia em blocos de 25 minutos ("pomodoros"), com intervalos programados entre eles. A técnica visa driblar o enorme volume de distrações e interrupções e melhorar o nosso nível de concentração.


Essencialismo Nesse talk (com legendas em português), o autor Greg McKeown mostra como fazer menos, mas melhor. McKeown é autor do best-seller "Essencialismo A disciplinada Busca por Menos" e um dos criadores do curso Projetando a Vida Essencialmente, da Universidade Stanford. Ele também atua como Jovem Líder Global pelo Fórum Econômico Mundial.


4 Day Week Global

Se quiser saber mais detalhes sobre o trabalho de quatro semanas, o site da organização que vem promovendo a ideia mundo afora traz dados interessantes e uma série de informações relevantes sobre o movimento. É o caso deste white paper.



 


Mariana Poli é jornalista e Curadora da Sputnik, escola corporativa da Perestroika
Jornalista, com pós-graduação em marketing pela FGV, trabalhou como editora nas revistas Você S/A e Você RH, onde se especializou na cobertura de temas como futuro do trabalho, carreira, empreendedorismo, gestão de pessoas e tecnologia. No Grupo Exame, também coordenou a pesquisa "As 150 Melhores Empresas para Trabalhar". Hoje, atua como curadora da Sputnik, escola corporativa da Perestroika, levando conteúdos e soluções de aprendizagem para milhares de profissionais no Brasil.