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ESPECIAL DIVERSIDADE | Mulher Negra: Políticas Públicas, Representatividade e Vivências



Na última semana, a Movile deu início a um momento super especial: o Mês da Diversidade, Equidade e Inclusão, organizado pela investidora em parceria com as empresas investidas.


Com o tema "DE&I 360˚: Vivências, estratégias e impactos", o evento conta com palestras todas as semanas, ao longo do mês de agosto.


O objetivo é discutir as vivências de pessoas de grupos minorizados, estratégias de inclusão corporativa e como as startups podem avançar nesse tema, bem como o impacto que isso pode gerar — tanto para as organizações, quanto para a sociedade. Cada palestra será apresentada por uma das empresas, e você pode conferir a cobertura de cada uma delas no nosso Especial Mês da Diversidade.


Celebrando o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, (25 de julho), o primeiro painel do mês de DE&I contou com a presença de mulheres negras e indígenas de diversas interseccionalidades, que compartilharam suas experiências e falaram como é ser uma mulher preta/indígena no contexto brasileiro, detalhando suas lutas e desafios.


O objetivo foi abordar a questão racial e de gênero, é claro, mas também transmitir uma visão mais ampla, lançando um olhar sobre diferentes recortes, a fim de conhecer os desafios que fazem parte das vidas de mulheres pretas de diferentes idades, com deficiência, LGBT’s e indígenas.


O painel teve como anfitriã Emanuela Santana, Líder de Recrutamento e Seleção e Employer Branding na Movile, e Líder do MovBlack, que mediou o bate-papo e direcionou as perguntas às participantes.


Quais têm sido os principais desafios vivenciados na atualidade?


Para Larissa Ferreira, jornalista e produtora, o maior desafio é manter a esperança e ficar mentalmente bem diante do momento em que o país vive, com tantas notícias de violência contra pessoas pretas, principalmente nas periferias, favelas e baixadas, lugar de onde veio.


Larissa ainda fala sobre a dificuldade de ser respeitada enquanto uma mulher com deficiência física, que tem autonomia para se virar sozinha, sem depender de outros, mas que nem sempre encontra a acessibilidade necessária por onde passa.


Lian Gaia, atriz e ativista, aponta o apagamento que o corpo indígena sofre, muitas vezes de forma sutil, mas sempre presente, comprometendo seu lugar de existência: "As pessoas não só questionam a nossa cor, elas questionam o nosso espírito. Elas perguntam se a gente é de verdade.”


Segundo Gaia, muitos ainda carregam uma visão mitificada sobre o que é o corpo indígena.


“Talvez, se eu estivesse sem o meu cocar de pena que me cobria, me faria menos indígena. Talvez, se eu estivesse sem o urucum no rosto, eu seria menos indígena. Talvez, se eu estivesse sem o meu colar, que tem um osso de carneiro, eu seria menos indígena. Talvez, se eu estivesse sem blusa, eu seria mais indígena.”


Quais foram nossas conquistas até o presente momento? Quanto já conseguimos avançar nessas pautas?


Valéria Barcellos, multiartista e curadora, relata que a evolução é lenta, mas gradual e muito significativa. Então, traça um panorama cronológico, apresentando as principais conquistas do movimento trans no Brasil.


Valéria conta que foi pioneira ao fazer a troca de nome sem ter feito cirurgia de redesignação genital, e menciona o árduo processo jurídico que teve de enfrentar entre 2012 e 2013: “colocar nome nas coisas e ter direito ao seu próprio nome é existir”.


Em 2016, a cirurgia deixou de ser obrigatória e, em 2018, o Tribunal Federal passou a autorizar a mudança de nome e gênero em cartório, tornando o processo muito mais simples e rápido.


Valéria aponta que o que ainda falta conquistar é o respeito à pessoa e à identidade de gênero enquanto um ser humano: “A gente ainda não consegue ser vista enquanto gente”, e complementa: “essa bestialização da mulher preta toma outras cores quando é uma mulher trans preta.”


Ressalta o fato de que toda essa evolução se deu de maneira embativa, com muita luta, já que de maneira natural, não ocorreria. E destaca ainda a importância de se manter uma atenção constante para que tais conquistas não sejam perdidas.


Já Helena Theodoro, professora da UFRJ, considera que avançamos pouco até o momento. Justificando sua fala, refere-se aos valores tradicionais, onde um grupo se considera superior ao outro por ter uma pele mais clara, e determinada forma de fé e religiosidade é tida como adequada e única, criando um princípio universalista de verdade.


A professora ainda questiona o papel das mulheres na sociedade que, por muitas vezes, é relegado apenas à reprodução, aos cuidados dos filhos e do lar, bem como em funções tidas como “femininas”. Sua sexualidade é controlada e, ao envelhecer, não lhes sobra outra função senão ser tias, avós e cuidadoras.


Helena aponta a importância de cada mulher compreender o seu papel no mundo, suas raízes, para assim, desenvolver autonomia para exercer seus direitos: “Se eu nasci de um jeito e quero ser de outro, eu tenho o direito de buscar tudo aquilo que me faz feliz”, conclui.


Como a mulher preta pode ganhar espaço e ser mais representada?


Larissa conta que, quando criança, não tinha muita perspectiva de vida, pois não se via representada nas revistas, na TV, nos clipes de música, nos artistas que faziam shows em sua cidade. Isso fez com que não projetasse uma visão de futuro.


A produtora relata que, ao cursar Comunicação na UERJ, era a única pessoa com deficiência de sua turma. Lá, sentiu-se representada por uma professora, que também tinha deficiência: “Apesar de ela ser uma professora branca, eu me via nela, porque ela tinha deficiência. Então, quando ela entrou na sala, eu comecei a chorar igual a uma doida, e ninguém entendeu porque eu estava chorando.”


Larissa ressalta a falta de interesse público para criar meios e políticas capazes de viabilizar às pessoas com deficiências acesso às mais variadas experiências que lhe são de direito, o que acaba por criar uma barreira enorme para essas pessoas: “Falta olhar para o corpo deficiente (...) e enxergar que ali há possibilidade de tudo.”


Emanuela complementa:

“Falta essa consciência mesmo de entender ‘ok, eu tenho acesso a tudo, mas, e para uma pessoa que não está nas mesmas condições que eu, o que a gente precisa adaptar para funcionar e para atrair essas pessoas para esse mesmo espaço?"

Valéria diz que se tornou uma multiartista justamente por não se ver nos lugares: “Eu não vi muitas cantoras trans quando era criança. Ou, se vi, não me representavam dessa maneira. Aí, foi a partir disso que eu decidi, depois de muito tempo, que eu seria essa representatividade, porque não me via lá nesses espaços, não me enxergo nesses espaços.”


Com isso, Valéria chama atenção para o “pretagonismo”, que é o protagonismo de pessoas pretas, sobretudo as mulheres, que devem sim, ocupar espaços nos quais não se sentem representadas, indo além da luta pela sua existência no dia a dia.


Qual a importância da união para esses movimentos?


Gaia fala sobre a importância de unir os movimentos e reivindicar suas origens com orgulho, ocupando o lugar que lhe é de direito na sociedade:


"Para um corpo se dizer indígena, ele precisa da FUNAI, ele precisa de vários órgãos, que diz que 'esse corpo, ele é indígena'. (...) Ainda nos tiram o direito de dizer quem a gente é. Então, quando nos colocamos junto com nossos irmãos ‘nós somos 54% porque nós somos indígenas e pretos, nós estamos juntos, nós somos maioria’. É um discurso o qual a gente tem que carregar daqui em diante.”


Gaia ainda complementa, dizendo: “O Brasil, ele é indígena e o Brasil, ele é preto também. Porque eu mereço tanto essa terra, quanto meu irmão, que foi retirado de seu território e jogado nessa terra. Então, o mesmo direito que um corpo indígena tem, é o mesmo direito que um corpo preto tem (...). É quilombo e aldeia sempre. E esses corpos não têm que estar separados, eles têm que andar juntos porque, sozinhos, a gente não consegue.”


Como lidar com discursos que tentam invalidar os movimentos?


Valéria Barcellos diz que luta por Políticas Públicas e Legislativas, de modo a usar os dispositivos legais para fazer valer seus direitos: “a gente precisa, realmente, com muita intensidade, forçar Políticas Públicas e Legislação, porque isso sim vai fazer com que as pessoas entendam que a piada dos anos 70 já não nos cabe mais.”


Já Larissa, aponta o caminho da didática e da paciência, por meio de um trabalho de instrução. Afinal, quando as pessoas têm acesso à informação, já não podem usar a velha desculpa do “eu não sabia”.


De acordo com as duas painelistas, quando alguém diz algo como: “Agora vocês querem tudo”, é importante explicar que esse “tudo” não é muito. É apenas o mínimo que uma pessoa precisa para sobreviver de forma digna. Ou seja, desenvolver políticas públicas voltadas para a acessibilidade, por exemplo, nada mais é do que investir em humanidade.


O que aprendemos com este painel?


O bate-papo com essas mulheres incríveis foi para lá de interessante e inspirador.


Deixou claro que, apesar de avanços pontuais, há ainda muita luta pela frente a fim de conquistar direitos básicos para a sobrevivência e dignidade de qualquer ser humano, tais como: acessibilidade, representatividade, equidade e, principalmente, respeito aos corpos pretos e indígenas, que sofrem todos os dia.


Ou seja, no fim das contas, a luta é pela garantia do direito de viver e existir, de forma digna e plena. Nossa intenção com este conteúdo — e todos os outros que virão pela frente — é dar luz às vivências plurais que coexistem (ou não?) em um espaço corporativo todos os dias.


Faça o exercício: dentro do seu time e das lideranças da sua empresa - quantas mulheres pretas, indígenas, trans, PCDs, mais velhas existem? O que falta para elas ocuparem esses espaços? Talvez este texto te traga boas respostas.


O que você achou deste painel? Conte-nos um pouco sobre suas experiências!


 

O mês de DE&I está apenas começando. Haverá ainda muito mais conteúdos como este, buscando dar visibilidade para temas importantes de nossa sociedade, que precisam ser abordados e tratados com o devido respeito e atenção que merecem. Acompanhe todos eles no nosso especial em: Mês da Diversidade.