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Economia Donut: qual é a responsabilidade das empresas na nova economia?


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O conceito da economia Donut foi criado pela economista inglesa Kate Raworth e apresentado no seu livro “Economia Donut: sete maneiras de pensar como um economista do século 21”, de 2019.


Trata-se de modelo econômico pautado no desenvolvimento sustentável que inclui o chamado “limites planetários” na criação de novos modelos de desenvolvimento. Caso você ainda não conheça, os limites planetários são delimitações definidas por cientistas, os quais não devem ser ultrapassados como forma de preservar o planeta.


Trazendo essa concepção para o meio corporativo, Raworth defende que a dignidade humana e esses limites devem ser o centro das estratégias econômicas, considerando que só haverá prosperidade nesse setor se bases sociais como saúde, educação e equidade forem devidamente atendidas sem que nenhum dos limites planetários seja transposto.


Em suma, isso vai ao encontro do conceito de empresa verde, a exemplo das startups ESG — Environmental, Social and Governance, em português Ambiental, Social e Governança — no qual as companhias devem pautar suas ações em abordagens que beneficiem e protejam a sociedade e o meio ambiente, e não apenas o lucro que pode ser obtido.


Considerando todo esse cenário, qual é a atual responsabilidade das empresas?


Definindo a economia Donut

Conforme mencionamos, a economia Donut foi criada por Kate Raworth, e parte do princípio que é necessário incluir os limites planetários na elaboração de novos modelos mundiais de desenvolvimento.


O nome “Donut” é utilizado porque a estrutura visual desse conceito se assemelha a uma rosquinha, sendo que no seu centro estão todos os aspectos sociais para se manter a qualidade de vida da sociedade em geral e, nas suas bordas, os limites planetários que precisam ser respeitados.



Na prática, a economia Donut não é algo a ser seguido apenas por um setor específico, mas, sim, uma forma de superar os desafios enfrentados pela humanidade atualmente, de modo que isso ajude a atender às necessidades de todos (pessoas e empresas) respeitando o que o planeta tem e pode oferecer.


Outra forma de explicar esse conceito é dizendo que se trata da adoção de medidas que permitem a atuação de negócios de diferentes segmentos de uma maneira que isso garanta à sociedade o acesso básico ao que é necessário para a vida.


Considerando esse modo de ver a economia Donut, é possível destacar ainda que as companhias devem pensar e estruturar suas estratégias em ações que pense no coletivo, na Terra de maneira geral, e em questão como clima, proteção da camada de ozônio, e outros que podem afetar a humanidade agora e no futuro.


Os limites planetários

Por várias vezes aqui, neste artigo, citamos os limites planetários. Mas, afinal, sobre o que se trata esse conceito?


Os limites planetários consistem em nove limitações ambientais dentro das quais é possível a humanidade se desenvolver sem que as consequências das suas ações causem danos irreversíveis ao meio ambiente.


Definido em 2009 por um grupo de cientistas do Stockholm Resilience Centre (SRC), centro de pesquisa sobre resiliência e ciência da sustentabilidade na Universidade de Estocolmo, esses limites são:

  • mudanças climáticas: diz respeito ao aumento da temperatura global e às consequências que isso gera, como os eventos climáticos extremos que têm acontecido com mais frequência em diferentes pontos do planeta;

  • integridade da biosfera: refere-se à extinção de espécies e perda da biodiversidade;

  • mudança do uso do solo: transformação de vegetações, florestas, pastagens, pecuária, agricultura, entre outros aspectos relacionados;

  • fluxos bioquímicos: abrange, especialmente, ciclos de nitrogênio e fósforo, que são elementos necessários para o crescimento de plantas, mas nocivos quando usados em excesso;

  • destruição do ozônio estratosférico: “buracos” causado na camada de ozônio, que podem resultar no aumento dos casos de câncer de pele e em danos ambientais impossíveis de serem revertidos;

  • uso da água doce: alerta para o aumento do consumo de água doce para a agricultura e fabricação de energia elétrica;

  • acidificação do oceano: causa morte de corais e, por consequência, o desequilíbrio do ecossistema marítimo;

  • carregamento de aerossóis atmosféricos: resultado da queima de combustíveis fósseis e também de incêndios florestais;

  • incorporação de novas entidades: elementos ou organismos modificados e/ou criados por humanos, a exemplo de microplásticos e até materiais radioativos.

Limites planetários já ultrapassados

De acordo com uma matéria publicada pelo site BBC News Brasil, infelizmente, quatro dos nove limites planetários já foram ultrapassados, que foram:

  • mudanças climáticas;

  • integridade da biosfera;

  • mudança do uso do solo;

  • fluxos bioquímicos.

Segundo percepções do Centro de Resiliência de Estocolmo citados na mesma reportagem, há uma boa notícia em tudo isso, que é o fato de a humanidade saber o que pode ser feito e ter soluções nas mãos para tornar isso real.


Um bom exemplo pode ser a adoção de novos hábitos e comportamentos, tais como economizar energia, comer mais alimentos naturais, usar transporte público ao invés de carros particulares, entre outros.


Mas, para isso, governos e empresas precisam adotar medidas que também colaborem e incentivem a população a trazer essas boas práticas para o seu dia a dia.


Os aspectos sociais da economia Donut

Uma parte da “rosquinha” da economia Donut é pautada nos aspectos sociais. Esses, por sua vez, são inspirados nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), definidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2015.


Considerando os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Brasil, temos:

  1. Erradicação da pobreza

  2. Fome zero e agricultura sustentável

  3. Saúde e bem-estar

  4. Educação de qualidade

  5. Igualdade de gênero

  6. Água potável e saneamento

  7. Energia limpa e acessível

  8. Trabalho decente e crescimento econômico

  9. Indústria, inovação e infraestrutura

  10. Redução das desigualdades

  11. Cidades e comunidades sustentáveis

  12. Consumo e produção responsáveis

  13. Ação contra a mudança global do clima

  14. Vida na água

  15. vida terrestre

  16. Paz, justiça e instituições eficazes

  17. Parcerias e meios de implementação.


Ou seja, uma empresa que pretende adotar a economia Donut precisa alinhar os dois conceitos que acabamos de apresentar (limites planetários e aspectos sociais) e vincular isso às suas estratégias, abordagens e posicionamentos internos e externos.


Os estágios para adotar a economia Donut

A economia Donut visa trazer para os gestores uma nova lógica e ponto de vista no que se refere aos formatos de negócios, considerando, para isso, limites ecológicos e a garantia de boas condições para a vida humana como base para definição das estratégias empresariais.


Isso significa que negócios que querem crescer não devem mais ser pautados apenas na oferta de produtos e serviços de qualidade que atendam às necessidades do seu público-alvo.


Para o sucesso de uma companhia na época em que estamos vivendo, é essencial considerar também quanto e como as ações, produções e entregas da marca afetam o ecossistema no qual estão inseridas e como isso impacta a humanidade e o planeta Terra de uma forma realmente ampla e abrangente.


A questão aqui é, quando as empresas tomam conhecimento do conceito da economia Donut, cada uma adota medidas distintas para migrar do modelo degenerativo para o modelo regenerativo.


Segundo percepções da própria idealizadora do conceito, os cinco estágios pelos quais costumam passar os negócios que visam adotar a economia Donut são:

  1. Não fazer nada

  2. Fazer o que compensa

  3. Fazer a parte que cabe

  4. Não provocar danos

  5. Ser generoso e regenerativo

1. Não fazer nada

Manter o negócio e as ações da empresa como estão, já que isso está dando o lucro esperado. No entanto, diversos acontecimentos têm chamado a atenção dos gestores para uma necessidade, quase que urgente, de transformação.


Um bom exemplo é a resposta da própria natureza que, dependendo do que é acometido por suas manifestações, pode impactar diretamente na matéria-prima necessária para a produção dos itens a serem comercializados.


2. Fazer o que compensa

Em um segundo momento a empresa começa a implementar ações que vão ao encontro dos princípios da economia Donut, porém, a seu favor e não com um objetivo maior.


É o caso das medidas que visam reduzir o consumo de água, de energia elétrica, ou de gastos provenientes com descarte correto de lixo, sem que isso gere consequências efetivas e positivas na sociedade e no planeta.


3. Fazer a parte que cabe

Em um patamar um pouco mais avançado, gestores já têm uma percepção mais clara da importância de mudarem os processos da empresa.


Apesar de ser um grande passo rumo à conscientização de qual é a responsabilidade da companhia frente a tudo isso, por vezes essa estratégia abrange apenas o que está dentro do seu âmbito de atuação, sem alcances maiores.


Isso não é de todo ruim, mas é preciso tomar cuidado para não passar do “fizemos a nossa parte” para o “ficamos apenas com a nossa parte”.


4. Não provocar danos

Também chamado de “missão zero”, este estágio para a adoção da economia Donut destaca a percepção das empresas para a implementação de processos de produção que realmente causam o menor impacto possível no meio ambiente.


Aqui podemos citar como exemplo práticas voltadas para aproveitamento de água e geração da própria energia elétrica.


5. Ser generoso e regenerativo

No último estágio a companhia já está mais formatada dentro do conceito da economia Donut. Aqui, as ideias partem do princípio que é necessário não apenas gerar o menor impacto possível à natureza, mas também entregar algo em troca rumo à sua regeneração.


É o caso, por exemplo, de companhias que promovem o plantio de árvores de acordo com um volume determinado de produtos vendidos.


Proposta da economia Donut versus responsabilidade atual das empresas

A esta altura do artigo você deve estar pensando quanto a economia Donut está relacionada ao conceito ESG que mencionamos logo no início deste artigo, não é mesmo?


Fazendo um paralelo entre esses dois temas, vale destacar que ambos não podem se tratar de ações isoladas para resolver uma questão em especial por um determinado período.


Ainda que com abrangências distintas, eles exigem das companhias posturas, medidas, práticas e estratégias que gerem real valor para a sociedade e que ajude a preservar verdadeiramente o meio ambiente, seja dos seus impactos diretos ou não.


Nesse cenário, é como se fosse solicitado para os idealizadores que “pensassem fora da caixa”, colocando seus negócios sobre alicerces que respeitam a vida humana e o planeta, indo muito além de ter como objetivo principal a lucratividade pelos produtos e serviços comercializados.


Para empresas que estão sendo criadas já dentro dessa necessidade, pode ser um pouco mais fácil construir um empreendimento que já “nasce verde” ou que, pelo menos, tenha princípios e processos mais alinhados a essa questão.


Já para companhias que estão há mais tempo em atividade, mas que estão sentindo o impacto da necessidade de passarem por essas mudanças, a dificuldade pode estar em encontrar soluções que preservem as suas características principais, mas que, ao mesmo tempo, alinhe a sua atuação às atuais exigências do mercado e dos consumidores.


Por que empresas sustentáveis são mais valorizadas

Não podemos deixar de citar também que empresas sustentáveis tendem a ser mais bem vistas por potenciais investidores.


Uma das razões para que isso aconteça é que negócios com responsabilidade social e ambiental costumam atrair e fidelizar mais público. Consequentemente, geram mais vendas e rentabilidade.


O relatório “Tendências da experiência do cliente 2021” da Zendesk, por exemplo, revelou que 63% dos consumidores querem comprar de empresas que têm responsabilidade social.


Obviamente, esse não deve ser o único motivo pelo qual gestores devem buscar a implementação de conceitos responsáveis como o que destacamos neste artigo.


A verdade é que essa postura deve estar alinhada para atendimento de um propósito maior, que é a preservação da vida humana e da Terra, de modo que a economia mundial possa continuar crescendo sem impactar negativamente as pessoas e o meio ambiente.


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Redação | Movile Orbit