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ESPECIAL DIVERSIDADE | Construindo a cultura do cuidado: de que forma ela transforma nossas vidas?


É impossível falar sobre diversidade sem mencionar saúde mental e a cultura do cuidado. Afinal, trata-se de um aspecto intrínseco da inclusão que interfere diretamente na forma como nos sentimos e nos relacionamos com as pessoas à nossa volta.


Por muito tempo negligenciada, a saúde mental vem ganhando cada vez mais relevância na sociedade e no mundo corporativo, tendo em vista seu impacto em nossa autonomia e produtividade enquanto indivíduos.


Embora sempre tenha sido um assunto importante, recentemente teve como catalisador a pandemia de covid-19 que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, desencadeou um aumento de 25% na prevalência de transtornos como ansiedade e depressão ao redor do mundo.


Além disso, a partir de 2022, o burnout passou a ser reconhecido pela OMS como doença ocupacional, ou “estresse crônico de trabalho que não foi administrado com sucesso”.


Diante destes dados, torna-se imperativo pensar em formas de combater esses e outros males que afetam a sociedade e comprometem a saúde da população.


É aí que entra o conceito de cultura do cuidado, uma importante aliada na busca por autoconhecimento e equilíbrio emocional, capacitando as pessoas a lidarem com suas questões e angústias de forma mais assertiva, em um processo de cura, compreensão e acolhimento de si. Para pessoas de grupos minorizados, este tema é ainda mais importante, considerando que todo o histórico de rejeição, preconceito e síndrome do(a) impostor(a) — entre outros fatores — tende a exercer um peso grande na saúde e segurança emocional dessas pessoas.


Este foi o assunto abordado no quarto dia do nosso Mês da DE&I, evento organizado pela Movile e suas empresas investidas, que teve como objetivo discutir questões essenciais para o desenvolvimento de uma sociedade mais saudável.


Você pode acompanhar todos os conteúdos do evento no Especial de Diversidade do Movile Orbit.


Este quarto encontro contou com a presença de Natália Ubilla e Renata Moser, da MovilePay, que receberam a psicóloga e empreendedora social, Mariana Luz, para conduzir um workshop sobre o tema da cultura do cuidado.


O que é cultura do cuidado?


Mariana Luz, Psicóloga e empreendedora social, iniciou sua apresentação contando que começou a pensar em “cultura do cuidado” a partir de uma experiência de burnout que teve aos 22 anos, quando ainda não era psicóloga:


“Eu comecei a me preocupar bastante com a saúde emocional e com a maneira com que eu me relacionava comigo, com os outros e, sobretudo, com o trabalho.”


A psicóloga define o tema como uma cultura que permite olhar para o todo a partir da tríade: eu, nós, mundo.


Ou seja, considerando a relação que eu estabeleço com o meu eu, com os outros e com o mundo ao meu redor, sempre tendo o cuidado como elemento norteador, a fim de desenvolver relações mais saudáveis e produtivas.


Para isso, devemos utilizar o que Mari chama de “os três a’s”: autoconhecimento, autocompaixão e autocuidado, soft skills que, muitas vezes, já fazem parte de nosso repertório, mas que geralmente precisam ser desenvolvidas e aprimoradas, para que possamos alcançar o objetivo final, que é cuidar cada vez mais de nós.


Mariana ainda alerta: “A cultura do cuidado não tem a ver com este lugar [referindo-se à positividade tóxica], da gente estar sempre bem, sorrindo, parecendo que está sempre em uma foto de Instagram. A cultura do cuidado é muito mais profunda do que isso. Ela passa por um processo de autoconhecimento, de autocompaixão, para chegar no final, no autocuidado.”


Por que construir uma cultura do cuidado?


Analisando a maneira como nos relacionamos, Mari observa: “Parece que a gente precisa viver o tempo todo como uma foto de Instagram, como um vídeo de TikTok — sempre feliz, sempre sorrindo — porque isso seria sinônimo de saúde.”


Em seguida, cita o conceito de “Sociedade do Espetáculo” elaborado na década de 60, pelo filósofo francês, Guy Debord, referindo-se a relações mediadas pela imagem, tal qual vivemos hoje.


“Ele falou isso na década de 60, mas parece que estava se referindo à nossa era, da Internet e das Redes Sociais.”, destaca.


A psicóloga aponta que, durante a pandemia, a gente passou a entender que as redes sociais são ferramentas muitíssimo importantes de conexão com o outro. Porém, ao mesmo tempo em que elas permitem manter contato com as pessoas que amamos, também contribuem para agravar uma crise que já existia.


Tendo isso em vista, além de sua experiência pessoal, Mariana conta que há outro fator que a fez perceber a urgência em pensar e construir a cultura do cuidado: o crescimento dos números relacionados aos transtornos mentais.


Os números dos transtornos mentais no Brasil


De acordo com dados da OMS, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de ansiedade, o segundo em burnout e o quinto em depressão. Podemos afirmar, sem sombra de dúvidas, que estas são disputas nas quais não queremos estar em destaque, não é mesmo?


É fato que, como vimos anteriormente, a pandemia contribuiu para o agravamento desta situação. Porém, ela apenas acentuou aquilo que já existia, e que devemos enfrentar com caráter de urgência, a fim de reverter este quadro.


Como construir uma cultura do cuidado?


Para Mari Luz, a cultura do cuidado está alicerçada em três conceitos-chave, que são os três a’s, mencionados anteriormente: autoconhecimento, autocompaixão e autocuidado. Em seguida, se aprofunda em cada um deles:


Autoconhecimento

A psicóloga explica que autoconhecimento é você saber quem você é. Quais são suas qualidades, seus defeitos, seus desejos, ambições e limites.


Trata-se de um processo contínuo, afinal, como seres humanos, estamos em constante mudança. Por isso, faz parte de uma jornada de conexão com nós mesmos: “É esse movimento, de a gente contar a nossa história, a partir de vários prismas, de várias possibilidades.”


“Para mim, o autoconhecimento é o caminho mais potente que a gente tem para viver a cultura do cuidado. Porque se eu não souber que eu sou, se eu não souber quais são os meus limites, as minhas dificuldades, o que eu quero, os meus sonhos, como eu vou conduzir, fazer as minhas escolhas e, mais do que isso, como eu vou tomar as melhores decisões para cuidar de mim?”


Mariana destaca ainda a importância de conhecermos nossos limites: “Na minha experiência, uma das coisas que me levou ao burnout foi justamente não entender a importância dos meus limites.” e reforça:


“Se eu estou conectada comigo, se eu me conheço, eu sei que eu tenho essa linha de limite e eu preciso ficar antes dela. Quanto mais eu souber de mim, mais eu vou estabelecer esses limites.”


Autocompaixão

Para Mari, a autocompaixão é a capacidade de nos perdoarmos quando erramos. Todos nós deveríamos ter, ou precisamos desenvolver, ou precisamos aprimorar.


“Nós sabemos, enquanto seres humanos, que nós vamos errar. Nós não somos perfeitos. Mas a gente tem essa expectativa, a gente tem esse ideal de perfeição, muito influenciados pela sociedade do espetáculo.” Explica a psicóloga, referindo-se a esse impulso de sempre ter que dar conta de tudo com um sorriso no rosto.


"Se eu tenho que, o tempo todo, ficar trabalhando neste ideal de perfeição, obviamente em algum momento, isso vai falhar. Porque a gente não consegue sustentar essa imagem o tempo todo.”, complementa.


Para ela, o processo de autocompaixão envolve pensar em como a gente sai da culpa e chega na desculpa:


“É justamente eu entender que a culpa faz parte do processo (...) então, muitas vezes, eu vou me sentir culpada. Mas depois eu preciso fazer esse caminho, até eu me perdoar, entendendo que eu vou falhar, eu não sou perfeita, e que essa expectativa, além de me frustrar, é insustentável.”


Autocuidado

Considerado por Mariana como a “cereja do bolo” da cultura do cuidado, o autocuidado é um conjunto de ações que fazemos pensando em nosso bem-estar.


“Autocuidado nada mais é do que amor e afeto consigo mesmo. Se ame e se cuide!”

Dentro dessa premissa, temos cinco diferentes tipos:


  1. físico: encontrado na prática de atividades físicas, em uma rotina de skincare, alimentação, massagem, dentre outras;

  2. emocional: ligado principalmente à práticas como psicoterapia e terapias alternativas;

  3. intelectual: no caso de pessoas que gostam de relaxar por meio de atividades como leitura e estudos — contanto que isso não gere uma sobrecarga, alerta a psicóloga;

  4. social: relacionado às interações com outras pessoas, como sair para curtir com os amigos, visitar familiares, etc.;

  5. espiritual: para pessoas espiritualizadas, envolve qualquer tipo de prática espiritual, não necessariamente ligada à religiosidade.


Para contribuir com a saúde mental e inspirar cuidados, a psicóloga disponibiliza para download gratuito, um Calendário de 30 dias de autocuidado. Lá, você encontra dicas de atividades para realizar no dia a dia, ou pode preencher com comportamentos voltados para o seu bem-estar, de acordo com suas preferências.


Jornada da saúde emocional: como construir um projeto de felicidade pessoal?


Mari Luz aponta que, apesar da importância de pilares como família, amigos, carreira e outros aspectos relevantes em nossas vidas, não podemos deixar de lado o nosso próprio bem-estar:


“A gente não pode perder de vista a importância da felicidade. E a gente precisa trabalhar isso em um projeto de felicidade que é pessoal.”

E é justamente aí que entram os três a’s: autoconhecimento, autocompaixão e autocuidado, que podem ser desenvolvidos por meio de uma ferramenta criada pela psicóloga: a Trilha de Autoconexão.


Como funciona a Trilha de Autoconexão?

Para auxiliar no projeto de felicidade pessoal, Mariana desenvolveu a Trilha de Autoconexão, cujo objetivo é contribuir para o processo de autoconhecimento.


A psicóloga explica que o exercício de autoconexão é composto por quatro perguntas simples, que você pode se fazer sempre que achar necessário, visando entender o seu momento. São elas:


1. Qual foi o fio condutor que te trouxe até aqui? Pense em 3 momentos/situações/pessoas da sua vida que fizeram você chegar até aqui hoje.


É importante entender que conhecer nossa própria história, levando em conta tanto experiências positivas quanto negativas, não só nos trouxe até onde estamos, mas também pode nos ajudar a ir mais longe.


2. O que eu faço muito bem? No que eu sou extremamente competente?


Para Mariana, apesar de não sermos definidos pelas nossas competências, elas permitem conhecer e entrar em contato com a nossa essência, e podem nos ajudar a lidar com as questões que a vida nos coloca.


3. O que eu faço e quantas horas eu dedico para mim ao longo da minha semana?


Essa pergunta nos ajuda a analisar nosso nível de autocuidado e entender o que de fato temos feito por nós mesmos.


4. O que eu mais sinto falta no meu dia a dia?


O objetivo é entender o que podemos fazer para que nossa vida seja melhor, ou seja, o que devemos mudar em nosso dia a dia para lidar de forma mais assertiva com aquilo que nos faz mal e superar os desafios.


Ativismo social em prol da felicidade individual


Natalia Ubilla, Head de Recursos Humanos na MovilePay, pergunta a Mariana qual foi o ponto de virada que a fez perceber que o que lhe fazia bem era ajudar as pessoas a encontrar esse caminho. A psicóloga então responde:


“Ver o Brasil um país melhor é uma coisa que me move há muito tempo. Isso tem a ver com a minha criação. Eu fui criada por uma mãe ativista (...) Então isso para mim foi sempre um grande motivador. Mas, com o burnout, eu fiz uma mudança, um ajuste, que foi entender que mesmo que o Brasil ainda seja um país racista, machista, LGBTfóbico, e isso atrapalhe na minha felicidade, eu não poderia deixar que isso me consumisse, como aconteceu no burnout.”


Mari conta que, dessa forma, a partir dos 22 anos, conseguiu fazer esse ajuste, passando a ser uma ativista e idealizadora, mas sem deixar de lado sua própria felicidade: “Mesmo que o mundo ainda não seja aquilo que eu gostaria, eu trabalho, eu coloco o meu tijolo, mas eu entendo o meu limite.”


“A minha felicidade não pode estar em detrimento a outras coisas. Eu luto, sim, por um mundo melhor, mas eu também preciso ser feliz. E eu não perco mais esse foco.”

A psicóloga esclarece que pensar na própria felicidade não deve ser encarado como uma prática egoísta, afinal, somos tão importantes quanto nossa vontade de ajudar.


Daí a importância do processo de autoconhecimento, para que possamos identificar e conhecer nossos limites, a fim de saber até onde podemos ir sem nos prejudicar.


Como identificar que eu preciso ter mais autocuidado?


Renata Moser, Analista de Experiência do Colaborador na MovilePay, pergunta a Mariana como sabemos quando precisamos ter mais autocuidado e como diferenciar o que precisamos acolher e respeitar do que devemos mudar para melhorar.


A psicóloga responde que é importante ter atenção a esses três elementos: humor, sono e alimentação.


Muitas vezes, podemos não sentir a ansiedade, mas nossa alimentação está toda desregulada, ou não estamos dormindo bem, ou mesmo, apresentando variações de humor: “É importante a gente ter tempo de se olhar e ter tempo de olhar para o outro também”, comenta.


Qual é o papel das lideranças das empresas na cultura do cuidado?


Renata também pergunta como Mariana enxerga o papel das lideranças das empresas na cultura do cuidado.


Mari então responde que as lideranças têm um papel imprescindível nesta questão: “Não adianta eu me cuidar, meditar, fazer um monte de coisas e chegar dentro da empresa e ter ali um ambiente que não é saudável.”


A psicóloga lembra que, para além de suas missões e valores, as empresas visam ao lucro, afinal, isso é vital para manter seu funcionamento.


Porém, as organizações que entendem essa responsabilidade e promovem um ambiente favorável ao cuidado, tendem a reter os melhores talentos e, consequentemente, lucrar mais.


Contudo, os resultados da pesquisa Carreira dos Sonhos, conduzida pela Cia de Talentos, apontam que 67% dos jovens não sentem que suas ideias são ouvidas e valorizadas dentro da empresa. E esse número é ainda maior entre as pessoas que atuam em cargos de média gestão, atingindo a marca de 72%.


Ou seja, os líderes, no geral, têm ainda um longo caminho a trilhar para atingir os pontos citados por Mari, que também destaca:


“O líder é aquela pessoa que vai entender as necessidades e que vai inspirar as pessoas. E inspirar passa também por você querer um ambiente que seja saudável. As empresas só tendem a ganhar com um ambiente saudável.”

7 dicas de autocuidado


Para encerrar sua apresentação, Mariana traz sete dicas práticas de autocuidado, que são essenciais para uma vida plena e feliz:


1. Pratique atividade física

Essencial para a liberação de hormônios como endorfina e serotonina, que estão diretamente relacionados ao bem-estar.


“A dica de ouro é encontrar uma atividade física de que você goste'', comenta a psicóloga.


2. Tenha uma boa alimentação

Assim como no caso dos exercícios, a alimentação também contribui para a liberação de hormônios, afetando nosso bem-estar.


Mariana diz que é importante se observar e entender os sinais do corpo. Para momentos de estresse e ansiedade, por exemplo, a banana e alimentos de cor verde escura podem ajudar.


Além disso, recomenda evitar processados e diminuir açúcar e sal, principalmente em semanas de maior sobrecarga.


3. Inclua a meditação ou ioga

Esse tipo de prática contribui para trabalhar a respiração e, por focar no momento presente, ajuda a combater a ansiedade.


4. Tenha um passatempo

Afinal, reservar um tempinho para fazer o que a gente gosta é essencial para o nosso projeto de felicidade pessoal.


5. Goste de sua aparência

Mari destaca que isso não tem nada a ver com ceder às pressões estéticas e sociais, mas se trata de: “Gostar de você, pensar em você e fazer coisas que te façam bem.”


6. Durma bem

Dormir bem faz toda diferença na forma como nos sentimos ao longo do dia, e isso não necessariamente está relacionado ao número de horas dormidas, mas sim à qualidade do sono.


7. Faça acompanhamento psicológico

Indicada para todas as pessoas, a psicoterapia é uma ferramenta que contribui ativamente para o processo de autoconhecimento, nos ajudando a desenvolver a autocompaixão, além de ser uma forma muito eficiente de autocuidado.


Afinal, como a cultura do cuidado pode transformar nossas vidas?


Como vimos, não apenas o Brasil, mas o mundo todo, está a caminho de um verdadeiro colapso, no qual transtornos como ansiedade, depressão e burnout estão presentes na vida de cada vez mais pessoas.


Neste contexto, atuar diariamente na construção de uma cultura do cuidado, mais do que contribuir para o nosso bem-estar, é também vital para a manutenção da nossa saúde e qualidade de vida.


É importante reconhecer que as empresas têm um papel fundamental nisso. Ou seja, cabe às lideranças, conhecer e entender as necessidades das pessoas com que trabalham, a fim de lhes proporcionar um ambiente saudável e encorajador.


Vale destacar que isso não é um mero capricho, e tende a ser revertido em valor para a própria organização. Ou seja, com a cultura do cuidado, todo mundo ganha!


Agora, queremos saber de você: como vai o seu projeto de felicidade? A sua empresa tem colaborado para a construção da cultura do cuidado? Quais iniciativas já foram implementadas? Quais desafios ainda precisam ser superados?


Compartilhe suas opiniões conosco, e vamos juntos entender quais são os melhores caminhos para o desenvolvimento da cultura do cuidado em nossas vidas, tanto a nível pessoal, como profissional.

 

Este foi mais um importante tema discutido no nosso mês de DE&I. Estamos apenas na metade, então ainda temos muitos debates bacanas pela frente. Você pode acompanhar todos eles em nossa página: Especial Mês da Diversidade.


Caso tenha perdido a cobertura do painel anterior, você pode conferi-la aqui: Paternidade ativa nas vivências diversas.