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ESPECIAL DIVERSIDADE | Atitudes de impacto: o papel da pessoa aliada na diversidade


É impossível falar sobre diversidade e inclusão sem mencionar o importante papel que as pessoas aliadas desempenham neste processo. Afinal, por meio de uma postura ativa, elas atuam como agentes transformadores, utilizando seus privilégios como ferramentas na busca por equidade e justiça para grupos minorizados.


Tendo em vista que o Brasil ocupa a 9ª posição no ranking de desigualdade mundial, não faltam oportunidades para quem deseja contribuir e levar esta missão como propósito de vida.


Este foi o tema do sétimo painel do nosso Mês da DE&I, evento organizado pela Movile e suas empresas investidas.


Você pode acompanhar todos os conteúdos do evento no Especial de Diversidade do Movile Orbit.


No encontro, realizado pela PlayKids, Mariana Ledesma, People Lead, e Paola Moraes, CPO da Sandbox, receberam Luciano Faustinoni, Diretor Executivo de TI na Serasa Experian e Rafa Mores, co-fundadora da Tamo Juntes, para um papo super inspirador, onde compartilharam suas vivências enquanto pessoas aliadas.


O papel das pessoas aliadas na diversidade


Rafa Mores, que se identifica como pessoa não-binária e é Co-fundadore e CEO da Tamo Juntes, inicia sua fala comentando seu propósito: “Hoje, dentro dos meus privilégios, eu entendo que a minha missão é ser ponte. É abrir caminhos para pessoas da comunidade LGBTQIAPN+.”


Para elu, atuar como pessoa aliada envolve a busca por autoconhecimento, a fim de entender a quê a gente veio. Diz ainda que, nesta jornada, lutando por inclusão e pensando no coletivo, podemos encontrar outras pessoas dispostas a fazer essa transformação acontecer e, ao se conectar com elas, é possível transformar vidas.


“O trabalho de diversidade e inclusão vai muito além do marketing e do posicionamento. É uma preocupação genuína com a vida das pessoas. É entender que empregar uma pessoa trans significa salvá-la. Em um cenário em que, a gente sabe, a expectativa de vida dessa pessoa em nosso país é de 35 anos.”


O papel das lideranças aliadas na diversidade


Luciano Faustinoni, Diretor Executivo de TI na Serasa Experian, comenta que o papel da liderança é fundamental no avanço de pautas como essa.


Para ele, além de ter um interesse genuíno no tema, as pessoas em cargos de liderança devem tratar a questão de forma intencional: “Porque a gente não vai conseguir mudar o ponteiro da diversidade e inclusão sem não atitudes que sejam, de fato, intencionais.”, explica.


O diretor conta que seu primeiro contato com o tema ocorreu enquanto trabalhava na IBM, quando foi convidado a fazer parte de um grupo multidisciplinar, com foco em melhorar a experiência das pessoas com deficiência contratadas pela empresa.


“Na primeira reunião, eu tive aquele estalo.”, comenta Luciano, referindo-se ao momento em que percebeu que ali havia um propósito no qual precisava se engajar.


Porém, relata que o que realmente o despertou foi olhar para a área de tecnologia, da qual era líder, e perceber que, dentre os mais de mil colaboradores, não havia nenhuma pessoa com deficiência. “Isso, obviamente, me incomodou demais.”, diz.


Então, aproveitando que a empresa estava contratando estagiários, sua primeira ação foi definir que metade das vagas deveriam ser destinadas a este grupo.


Como transformar privilégios em ferramentas de diversidade e inclusão?


Para falar sobre privilégios, Rafa dá destaque à palavra conscientização que, em sua visão, é composta por dois elementos: ter consciência e entrar em ação.


“Eu posso estar consciente disso, mas não necessariamente eu me movimento para mudar essa realidade — sobretudo de outras pessoas.”, explica.


Para elu, é neste ponto onde tudo começa, a partir do momento em que nos tornamos conscientes a respeito da sociedade em que estamos inseridos e de quem somos neste contexto.


Elu diz que foi a partir desse exercício que começou a entender a realidade social que a cercava, considerando que o Brasil está entre os países mais desiguais do mundo: “Eu comecei a perceber que a minha trajetória — até então, de sucesso — não era só uma questão individual. Não era só um mérito meu estar ali, naquele espaço.”


Com essa reflexão, Mores se deu conta de que havia algo que fez com que saísse na frente em relação às outras pessoas: seus privilégios.


“Eu comecei a me questionar sobre qual era o meu papel, como uma pessoa que estava em determinados espaços, nos quais não via outras diversidades.”, afirma.


“No Brasil, se você é uma pessoa branca, você tem privilégios. Se você é um homem, você tem privilégios, se você é uma pessoa cisgênero, você tem privilégios. Isso não quer dizer que é culpa dessas pessoas.”, reforça Rafa, e complementa:


“Eu trabalho para que o que é meu privilégio seja privilégio de todas as outras pessoas. Para que moradia, cultura, educação e saúde sejam direitos de todas as pessoas.”


Ainda, diz acreditar que o universo funciona por meio de trocas dinâmicas: “Se eu recebi muito, eu tenho muito a doar, tenho muito a contribuir.”


Elu ainda comenta que não fazia ideia de onde iria chegar, mas se manteve aberte e foi se conectando a pessoas que lhe mostraram novas possibilidades: “Tudo isso dá muito medo, porque é muito novo. É sair da zona de conforto. Mas, ‘é se perdendo que a gente se encontra’.”


Utilizando o poder de influência para fazer a diferença


Luciano diz que um de seus privilégios foi ter pais professores, o que lhe possibilitou crescer em uma família muito aberta a compreender que a sociedade é diversa.


Assim, entende que os privilégios que teve como um homem branco, de classe média e com acesso a estudo dentro e fora do país, lhe permitiram construir sua carreira. E reconhece que essa não é a realidade da maioria das pessoas no Brasil.


Resgatando o exemplo que citou anteriormente, Faustinoni conta que, dentre os estagiários contratados naquele momento, havia uma pessoa surda. Em um primeiro momento, buscaram aprender com ele, como inseri-lo naquele ambiente. Um ou dois meses depois, toda a equipe já se comunicava em libras.


“Quando eu olhei isso, eu falei: ‘Cara, estamos realmente fazendo a inclusão como ela deve ser feita.’”, relata.


O diretor recomenda que é preciso ter cuidado nesse processo: “Quando a gente inclui as pessoas, a gente, às vezes, tem a tendência de transferir toda a responsabilidade de adaptação do ambiente à pessoa que está sendo incluída.”


Ele explica que, na verdade, o processo de inclusão é justamente o oposto. O ambiente deve ser adaptado de modo que essa pessoa possa ser inserida, e tenha acesso às mesmas oportunidades que as demais.


Concordando com a fala de Rafa, Faustinoni diz que a gente realmente não tem culpa de nossos privilégios. Porém, a partir deles, temos a responsabilidade de promover as mudanças necessárias, a fim de equalizar o processo de desigualdade, sobretudo no Brasil.


“Esse é o entendimento que eu tenho para a minha vida, mas também como líder de empresa. É o meu papel dentro das organizações.”, conclui.


Como envolver as lideranças nessa agenda?


Para Luciano, a pauta da inclusão deve fazer parte da agenda estratégica da empresa. Ou seja, para dar certo, ela precisa ser um projeto intencional.


Ele comenta que, dentro das companhias, haverá pessoas que entendem e adotam essa pauta como um propósito. Porém, também haverá aquelas que não enxergarão o assunto dessa forma e, assim, não terão o tema como prioridade em sua organização.


Por isso, é importante colocar essa necessidade como um plano de execução, mapeando processos, identificando oportunidades e definindo metas para a contratação de pessoas diversas: “Se temos 200 posições para preencher por ano, X% serão destinadas a pessoas com deficiência.”, exemplifica.


Faustinoni aponta que há uma tendência de as pessoas se queixarem: "Ah, mas dos 100 currículos que eu recebi, veio uma pessoa com deficiência.” Porém, esclarece que essa é a realidade do mercado.


Então, coloca a seguinte questão: “Como a gente faz para adaptar essa realidade, para que essa pessoa tenha um nível de competitividade justo em meio a outras 100?”


Leia também: Tecnologia como aliada para redução de vieses inconscientes


Qual o papel do líder nesta pauta?

“O papel do líder é fundamental nesse projeto. Porque o mais fácil para a gente, é encontrar uma desculpa para não fazer.”, comenta o diretor, deixando claro que este é um desafio que requer um processo de execução intencional e com acompanhamento constante.


Ele ainda ressalta que esses processos não mudam apenas a vida das pessoas que são incluídas, mas também das lideranças e demais colaboradores, que passam a conviver com a diversidade e conhecer outras realidades, para além de seus privilégios, impactando na forma como percebem o mundo ao seu redor.


Rafa concorda, e diz: “Gosto muito de uma fala do Luciano, onde ele fala da importância de a gente se aproximar dessas realidades. Se a gente quer incluir uma pessoa trans ou uma travesti, é essencial que a gente conheça essas realidades. Que a gente entenda de onde essas pessoas vêm.”


Para exemplificar, traz dados alarmantes a respeito da realidade que as pessoas trans vivem no Brasil:


Mores explica que diversidade e inclusão, para além da humanização, é estratégia, análise de dados e criação de projetos: “Enquanto a gente não tiver visibilidade dos dados, a gente estará trabalhando com hipóteses. E todo mundo aqui sabe que hipótese não é a forma mais assertiva de resolver um problema na raiz.”


Elu ainda destaca a importância de compreender quais são os gaps e saber o que priorizar. Afinal, considerando que estamos falando do 9º país mais desigual do mundo, o que não faltam são desafios de diversidade e inclusão. E conclui, ressaltando a importância da intenção e do compromisso para avançar a pauta.


Lugar de fala e pessoas aliadas


Luciano, enquanto homem hétero, sabe que não tem lugar de fala para comentar sobre uma pessoa não binária, como Rafa. Afinal, não vive isso. Porém, isso não significa que não possa contribuir de alguma forma: “Eu, como líder, como não tenho lugar de fala em determinados temas, mas tenho a obrigação, e posso ter a atitude de aprender.”


Destaca ainda a importância de estarmos abertos para este processo de aprendizado, deixando de lado nossos vieses e julgamentos: “Nós, que não estamos nesse lugar de fala, precisamos aprender sobre isso, para saber incluir todo mundo e viver em uma sociedade melhor.”


Que tipo de ações uma pessoa aliada pode ter para contribuir de forma prática com a causa?


Rafa explica que nunca haverá um manual do que deve e o que não deve ser feito, uma vez que isso parte de um lugar muito individual. Por isso, é importante entendermos nosso lugar e nosso momento, a fim de conhecer nossos limites e o que podemos, de fato, fazer pelo outro.


Mores diz que, a partir do momento que nos engajamos na busca pela diversidade, passamos a prestar mais atenção nos lugares que frequentamos, nos perguntando o quanto aquele espaço é diverso, se as pessoas ali presentes realmente estão incluídas, se elas se sentem à vontade para falar e ser quem são, etc.


Neste ponto, reforça a importância do papel da liderança na construção de espaços seguros para que as pessoas se manifestem.


E conclui, dizendo que a partir do momento que as pessoas percebem que são livres para serem elas mesmas, poderão apresentar sua melhor performance, gerando um impacto verdadeiro.


Afinal, o que é ser uma pessoa aliada na diversidade e inclusão?


É preciso compreender que, na sociedade em que vivemos, privilégio é poder. Tendo isso em vista, o papel da pessoa aliada, sobretudo as que ocupam posições de liderança, é transformar tais privilégios em oportunidades de acesso, criando espaços seguros para que pessoas diversas possam crescer e se desenvolver.


Contudo, é importante destacar que, para contribuir, não é preciso ser líder. Basta ter a intenção e o compromisso com uma causa, e a vontade de equalizar o jogo, a fim de transformar a vida das pessoas ao nosso redor. Você topa esse desafio?


Agora, queremos saber um pouco sobre a sua experiência enquanto pessoa aliada. O que te despertou para esta missão? Quais estratégias utiliza? Como a sua empresa lida com essas questões? As lideranças estão engajadas?


Compartilhe suas vivências para inspirar outras pessoas a se tornarem aliadas na busca por uma sociedade mais justa, inclusiva e diversa!


 

Esta foi outra pauta valiosa do nosso mês de DE&I. Ainda temos mais um encontro na semana que vem, e você não pode perder! Para acompanhar todos os temas debatidos até o momento, acesse nossa página: Especial Mês da Diversidade.


E, se você perdeu a cobertura do painel anterior, pode conferi-la aqui: Pessoas com deficiência: da inclusão ao protagonismo.