• Redação

Ser rico ou ser rei? O que você, como fundador de uma startup, prefere ser e por quê?


Veja a thread aqui

Ao longo do ano passado, compartilhei essa thread acima no twitter com vários fundadores, tanto em conversas 1-1 como em eventos que participei cujo o tema era VC e M&A de startups.


Compartilhar essa provocação rendeu respostas muito interessantes.

Agrupei as mais recorrentes abaixo.


“Prefiro ser o fundador 1 porque…

  • …com 30M resolvo a minha vida e da minha família. Investindo isso depois, multiplico isso para uma quantia ainda maior”

  • …em ambos cenários o montante é o mesmo, mesmo que com percentuais diferentes, então prefiro o cenário em que em menos tempo eu chego lá por conta do risco que este intervalo adicional pode trazer”

  • … o fundador 2 é paper rich, ou seja, suas ações estão avaliadas nesse valor, mas isso não necessariamente significa dinheiro no bolso”

  • … o fundador 1 tem, provavelmente, mais controle sobre o negócio do que o fundador 2”

  • … sendo o fundador 1 hoje, num futuro, posso arriscar mais e buscar ser o fundador 2”

  • … sou empreendedor. Não me vejo tocando só esse meu negócio para o resto da vida. Já tenho várias dores validadas para montar outras empresas”

“Prefiro ser o fundador 2 porque…

  • … ele, provavelmente, gera muito mais impacto e empregos”

  • … vejo que o mercado que estou é gigante e tenho a oportunidade de construir algo enorme. Por conta disso as ações podem valer ainda mais no futuro!”

  • … já construí outros negócios e agora é a hora de swing for the fences”

  • … provavelmente ao longo dessa jornada já vou ter tido cash outs em secundárias nas rodadas de investimento, que são o motivo da minha diluição, o que me dá segurança de arriscar algo ainda maior”

  • … vou aprender muito mais na jornada até o bilhão e, provavelmente, vou me tornar uma grande referência”

  • … quero trazer mentes brilhantes (VCs, talentos, sócios) para dentro da empresa para me ajudar a chegar lá! O negócio é crescer a pizza e não se preocupar com o pedaço que eu tenho”


Com isso posto, para deixar a reflexão ainda mais interessante, vou adicionar um elemento na equação: probabilidades.


O pessoal da Indie Build que foi minha inspiração para essa análise.

Como mostrei no Exit in Public #1, apenas 30% das empresas que levantam ao menos uma rodada de capital conseguem chegar ao exit por um M&A.

Já no Exit in Public #2, mostrei que 80% dos deals dos principais compradores de startups brasileiras acontecem abaixo de R$ 100M e apenas 1% fica acima de R$ 1B.

Então, vamos voltar à provocação, usando os dados, mesmo que não completamente perfeitos, como premissas para nossa análise.

  • Founder 1: Roda a startup por 5 anos. Vende por ~R$100M. Recebe R$30M. Probabilidade: 80%*30% = 24%.

  • Founder 2: Roda a startup por 10 anos (e contando). Está avaliado em R$1B. Tem suas ações avaliadas em R$30M. Probabilidade: 1%*30% = 0,3%


Fazendo o cálculo do valor esperado:

  • Founder 1: R$30M*24% = R$7,2M

  • Founder 2: R$30M*0,3% = R$0,09M

O valor esperado do founder 1 é ~80x maior do que o founder 2.

E aí, founder 1 ou founder 2? O que você como fundador de uma startup prefere ser e por quê?



Calma, quero colocar mais alguns elementos na discussão tirados do livro Super Founders: What Data Reveals About Billion-Dollar Startups, do Ali Tamaseb… 😄

Para quem ainda não leu ou quer pegar os insights principais, recomendo a leitura do artigo que o próprio autor escreveu com seus principais insights.


Separei alguns dados interessantes do artigo para somarmos a discussão de optar por ser o founder 1 ou o founder 2. O que a pesquisa mostra sobre as empresas de valor de mercado >$1B:

  • Mais da metade dos CEOs fundadores têm mais de 35 anos no ano da fundação

  • 50% têm mais de 10 anos de experiência profissional antes da fundação

  • Quase 60% são empreendedores seriais

  • Os empreendedores seriais fundaram e lideraram startups anteriormente

  • No geral, CEOs fundadores tiveram ao menos um exit em suas experiências pregressas

  • Os fundadores foram funcionários de empresas Tier 1 (Ex.: Facebook, McKinsey, Microsoft, etc)

  • Mais de 90% são VC-backed

Recomendo pesquisar sobre os unicórnios brasileiros e seus fundadores para tirar a prova real dos dados acima.

Agora vai, dado as novas variáveis, founder 1 ou founder 2? O que você como fundador de uma startup, considerando o seu cenário atual e considerando como mercado encara toda essa discussão, prefere ser e por quê?


Sei que você pensou na resposta e numa boa justificativa… mas mesmo com tudo que falei acima, o fato é que não há uma resposta certa para essa provocação. 😳


Afinal, há inúmeras variáveis que influenciam na decisão.


Qual é o seu momento de vida? Quantos anos você tem? Já tem família e filhos? Qual é o seu background? Você já possui um conforto financeiro? Você já teve uma empresa antes? Ela deu certo ou deu errado? Qual a sua experiência profissional? Como está o mercado que você atua? Há competidores muito capitalizados? Você consegue se manter competitivo diante desse cenário? Você vem crescendo a que taxas? Se você optar por acelerar seu crescimento, você está seguro que consegue os recursos necessários para isso? Sua startup é venture fundable? Quão confortável você fica em assumir riscos? Você sabe quais riscos você está escolhendo correr ao empreender neste setor? E os riscos que você nem sabe ainda que existem? Como está o cenário macroeconômico e regulatório hoje? E como ele estará daqui 5-10 anos? E se acontecer uma pandemia que ninguém espera? O que você se vê fazendo no longo prazo? Como está a sua relação com os seus sócios? E com o seu time? Vocês têm as competências necessárias para levar a empresa para o próximo patamar? … Bom, acho que já deu para entender a dificuldade desse exercício… 😅


Não à toa que essa reflexão é conhecida como O Dilema do Fundador, fruto de um estudo de 2008 de autoria de Noam Wasserman da Harvard Business School.

Apesar do tempo desde a publicação, o assunto segue sendo mais atual do que nunca.


A maioria dos empreendedores acabam não refletindo com a profundidade que o tema exige, seja por desconhecimento, seja por sofrerem do Efeito do Lago Wobegon ou seja por qualquer outro motivo.


O estudo do professor Wasserman mostra que há uma incompatibilidade entre ganhar dinheiro e ter o poder/controle das decisões do negócio.


Para se ter uma empresa com maior valor de mercado, na maior parte dos casos, será preciso abrir mão de equity, seja para conseguir um investimento, seja para atrair uma pessoa-chave ou até mesmo um co-fundador.


A questão é que junto a estes fatores vem condições e direitos que mudam a relação de autonomia e controle que existia antes.

Para entender essa dinâmica em maiores detalhes, recomendo navegar pelo Venture Dealr.

E é nesse cenário que o trade-off se manifesta: ser rico ou ser rei? Ganhar dinheiro ou ter o poder/controle das decisões?


Fonte: HBR

O que eu mais gosto dessa reflexão toda é que ela ajuda os empreendedores a entenderem o que é sucesso para eles. Esse é o ponto-chave.


Aqueles que buscam ser reis, mesmo que acabem ricos, não se considerarão bem-sucedidos se perderem o controle do seu próprio negócio. Enquanto que os fundadores que miram ser ricos, não se considerarão mal sucedidos quando outras pessoas estiverem no controle da sua empresa.


No final das contas, a resposta correta é extremamente pessoal. Alguns miram na lua, enquanto outros preferem um resultado mais palpável. O importante é entender o que você quer para você e as consequências da sua escolha.


 

Luiz Fernando Silva Néto
Luiz atua como Associate na ACE Startups, contribuindo diretamente com os novos investimentos, gestão do portfólio, M&A e com as captações de dezenas de empreendedores. Além disso, co-fundou o Emerging VC Fellows, o fellowship dos futuros líderes em VC na América Latina.