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  • Redação

ESPECIAL DIVERSIDADE | Paternidade ativa nas vivências diversas


A criação e educação dos filhos, por muito tempo, foi uma tarefa destinada exclusivamente às mães. Neste contexto, atribuía-se aos pais apenas a responsabilidade de prover e sustentar o lar.


Porém, felizmente, essa realidade vem mudando. Afinal, cada vez mais pais têm se dado conta da importância do seu papel no desenvolvimento de seus filhos.


De acordo com pesquisa conduzida pelo Ibope, cerca de apenas metade dos pais participam ativamente nas rotinas de cuidados dos pequenos, e 74% revelam que gostariam de contribuir mais.


No entanto, ainda há um longo caminho a ser percorrido, principalmente no que diz respeito ao machismo, fruto de uma sociedade patriarcal, que ainda exerce grande controle sobre a forma como muitas pessoas encaram a paternidade.

Segundo estudo do IBGE, as mulheres gastam em média 21,3 horas por semana em atividades domésticas e de cuidados dos filhos, enquanto os homens dedicam apenas 10,9 horas por semana.


Se este trabalho fosse remunerado para as mulheres, ele injetaria cerca de 10,9 trilhões de dólares na economia, segundo estudo da Oxfam. O New York Times mostrou que essa quantia é maior do que o faturamento das 50 maiores empresas do mundo.


O ponto alarmante aqui é que por ser um trabalho invisível, esquecemos que ele é um “valor” (emocional e até mesmo monetário, como mostramos acima) investido pelas mães em seus maridos e família, permitindo que esses tenham mais tempo para outros afazeres — no caso dos pais, para se dedicarem mais ao trabalho e a hobbies. No fim, a conta sempre fecha em prejuízo para a mulher.


Tendo isso em vista, falar sobre paternidade ativa é extremamente importante, a fim de quebrar esses tabus e construir uma imagem paterna mais participativa e atuante no lar, além de contribuir para a redução da desigualdade de gênero.

Este foi o tema abordado no terceiro dia do nosso Mês da DE&I, evento organizado pela Movile e suas empresas investidas, que teve como objetivo discutir pautas importantes em prol da construção de uma sociedade mais justa e diversa.


Você pode acompanhar todos os conteúdos do evento no Especial de Diversidade do Movile Orbit.


O encontro da vez foi conduzido pelo iFood, e contou com a mediação de Rafael Ireno, Líder de Comunidades Tech na empresa.


A conversa teve como convidados Diego Almeida, Felipe Knappe e Rafael de Paula, que colocaram uma lente sobre as experiências e desafios de exercer a paternidade ativa atualmente.


O impacto que a paternidade ativa ainda causa na sociedade


Rafael Ireno, Líder de Comunidades Tech no iFood e pai de Olívia, de 2 anos de idade, iniciou o painel compartilhando um momento que o marcou: ao trocar a fralda da filha, era observado pela moça que ajudava nas tarefas domésticas na casa de sua sogra. Após um tempo, ela diz: “Nossa! É até bonito de ver. Eu nunca vi um homem limpar uma criança.”


“Para mim, aquilo era uma coisa tão normal de fazer, de estar ali presente. E quando ela fez esse comentário, me fez pensar brevemente na realidade que ela vive, e muito da realidade que muitas pessoas ainda vivem, onde a mulher cuida da criança o tempo todo, e é responsabilidade da mulher fazer isso, enquanto o homem vai trabalhar (...) E vai brincar com a criança só no final do dia, e olhe lá.”, diz Ireno.


Rafael de Paula, Engenheiro de Software no iFood e pai de Thomas, de 3 anos, relata uma experiência semelhante, vivenciada ao levar o filho a uma consulta pediátrica.


Previamente impactado por perceber que, entre os 6 ou 7 pacientes que ali aguardavam atendimento, ele era o único homem que estava sozinho acompanhando o filho, relata:


“Quando entrei no consultório e sentei, a pediatra falou ‘Bom dia, tudo bem?’ e parou ali o assunto. Ficou em silêncio por alguns minutos, até que eu perguntei se estava tudo bem, porque ela ainda não tinha começado nada em relação à consulta. Aí ela me pergunta: ‘A mamãe já está chegando?’ Falei ‘Não, a mamãe não está chegando e nem vai chegar. Hoje somos só nós dois. E tá tudo bem.’ Daí ela: ‘Ah não, desculpa. É que eu não estou acostumada com isso, só o pai vir sozinho aqui, com o filho, na consulta.’”


O engenheiro comenta que foi ali que percebeu o contraste da paternidade ativa para o que ele se refere como “paternidade de fim de semana”. “Ali eu pude ver o quanto ainda causa surpresa e espanto para algumas pessoas.” Referindo-se a situações como as dos exemplos citados por ele e seu colega de painel.


Paternidade ativa em um contexto de adoção


Diego Almeida, Analista de Contabilidade Sênior no iFood e pai de Thiago, de 10 anos, fala um pouco sobre os desafios de ser pai adotivo: “Muda totalmente. Muda a forma como você pensa, o cuidado que você tem que ter com as palavras, com o que você diz, porque isso vai espelhar no seu filho.”


Almeida ainda conta que, ao entrar em um processo de adoção, não há como saber quando será chamado. E quando finalmente acontece, é tudo muito novo, pois acontece de repente.


“Você tem que entrar de cabeça e aprender num curto espaço de tempo”, comenta, destacando o fato de que, na adoção, a criança já vem com uma história e, quem quer ser pai, precisa aceitar essa história: "O meu sonho e o sonho do meu marido era ter um filho, independente das condições, dos traumas.”


Como é ter que dividir a atenção entre a paternidade e uma profissão que demanda tanto, como é o caso da área de tecnologia?


Rafael de Paula conta que ser pai do Thomas e exercer a profissão de que gosta, na qual atua desde os quinze anos, é muito bom. Porém, isso não significa que não existam desafios, tanto em casa, como no trabalho. Contudo, quando se está em um ambiente saudável, de responsabilidade e confiança, tudo fica muito mais fácil.


O engenheiro conta que, quando o filho nasceu, trabalhava em uma empresa que não favorecia muito a paternidade ativa. E relata uma situação em que pediu para mudar seu horário de trabalho, a fim de poder levar e buscar o filho na escola, algo simples, mas que gerou uma situação bem complicada na época.


"Eu sempre fiz questão de exercer esse meu papel de pai, independentemente do que isso fosse me custar.”, diz, explicando que teve algumas experiências e referências de pai durante a minha vida, as quais não queria levar para seu filho.


Mesmo atuando em uma área que lhe exige muito, o engenheiro conta que, trabalhando de forma remota, tem conseguido conciliar muito bem as rotinas do trabalho, da casa e do filho:


“Eu consegui ver ele andando, dar todos os banhos que ele tinha que tomar ao longo do dia, botar para dormir, comer, o que fosse… E foi também nesse período que, conseguindo ter um olhar muito mais próximo, (...) nós percebemos que tinha alguma coisa diferente no desenvolvimento dele, que não estava caminhando muito dentro do padrão. Até que nós conseguimos chegar no diagnóstico, que ele está dentro do espectro autista.”


Ele ainda destaca que trabalhar de forma remota possibilita que ele esteja presente em toda a rotina que o filho tem por conta do diagnóstico, acompanhando-o nos tratamentos de fonoaudiologia, terapia ocupacional e psicologia.


Os impactos da pandemia de Covid-19 na paternidade


Rafael Ireno conta que Olívia nasceu pouco tempo antes do início da pandemia, o que, de certa forma, possibilitou que ele estivesse mais presente no dia a dia da filha.


Assim, foi assumindo funções e responsabilidades, como dar banho e fazê-la dormir, o que inclusive, era algo em que ele e a esposa tinham bastante dificuldade no início. Ele diz que hoje, a filha só dorme com ele.


“Agora que a gente está retornando ao escritório, as pessoas estão voltando a uma vida mais regular, a gente realmente precisa de um espaço, de empresas que compreendam isso. Porque, eu tirar isso da Olívia hoje, é algo que me doeria muito, e eu não sei se eu faria.”


E complementa: “A empresa precisa se moldar também, ela precisa encontrar uma maneira de atender a essas necessidades dos pais também. Pouco tempo atrás, e talvez algumas empresas até hoje, se comportam como ‘a mulher tá cuidando do filho, porque você não vai conseguir entrar naquela reunião?’ Não, cara. Eu também não consigo. Eu preciso levar na escola, eu tenho essa responsabilidade.”


Ireno conclui dizendo que está superfeliz por fazer parte de uma equipe que permite que ele tenha essas experiências paternas, algo que impacta diretamente sua capacidade de estar ali, ativo e presente.


Paternidade ativa no contexto de mercado de trabalho


Felipe Knappe, Gerente de Engenharia de Software no iFood e pai de Davi, de 9 anos, Theo, de 2, e Alice, que acaba de completar 1 ano de idade, diz que ser pai de três filhos demanda disciplina, e comenta que essa questão da flexibilidade da empresa é extremamente importante.


Knappe diz que, como sua esposa é enfermeira, não tem a possibilidade de trabalhar de forma remota. Porém, eles têm a ajuda de uma pessoa, que toma conta das crianças durante o horário de trabalho.


Após o expediente, é o momento em que dividem as responsabilidades no cuidado dos filhos: “enquanto minha esposa está dando janta para um, eu estou dando banho no outro (...) a gente vai gerindo essa situação assim.”


Knappe sabe que sua situação é uma exceção à regra, citando como exemplo a licença paternidade de 60 dias oferecida pelo iFood. Reconhece a importância desse período, que diz ser fundamental para a readequação da rotina familiar.


Aponta ainda que é preciso respeitar os limites da criança e adequar sua rotina de home office aos cuidados dos filhos, que demandam sua atenção ao longo do dia.

Paternidade ativa como instrumento de apoio e parceria na divisão de tarefas


A paternidade ativa vai além dos cuidados com os filhos. Trata-se de estar presente, dar apoio e contribuir na divisão de tarefas, a fim de não sobrecarregar apenas um dos membros do casal.


Como Ireno coloca: “É muito no sentido de parceria mesmo, que a gente precisa ser ativo. Porque tem uma pessoa ali do lado que precisa do seu apoio também.”


Para Rafael de Paula, “O exercício da paternidade ativa é justamente você estar ali, disposto nessa divisão.” Comenta que há momentos em que a rotina é cansativa, por isso a importância dessa parceria entre o casal, para que um esteja disponível para o outro, ouvindo e contribuindo nessas situações.


“Infelizmente, eu vejo que a barra de expectativa da paternidade é muito baixa.” Comenta de Paula, explicando que, para muitos, o simples fato de dar um banho já parece muita coisa. “A gente não tem que se contentar só com o suficiente. A gente pode ir em busca de melhorar ainda mais essas questões.”


Para ele, ao estar presente dessa forma, só tende a ganhar: “A gente gera afeto, gera carinho e cria uma relação mais saudável com o filho.”


Almeida contribui com a visão de pai de uma criança que já está entrando na pré-adolescência, quando começam a surgir outros tipos de questões, como as mudanças naturais que ocorrem nesta fase:


“[a paternidade ativa] está muito voltada para a questão da orientação, de passar valores, criar esse laço de confiança e de proximidade.”

Fala ainda sobre a importância de ouvir a criança: “Para que ele enxergue os pais, não somente como pais, mas como amigos, como confidentes.”


Como conciliar a rotina de trabalho com os cuidados com os filhos?


Knappe relata que, para ele, cada dia é um dia “Você vai se planejando sob demanda”.


Comenta que é preciso ter o entendimento de que as coisas têm que acontecer um pouco no ritmo da criança: “Tem que entender o dia em que a criança não está bem, o dia em que a criança está doente ou está mais manhosa.”


Mas, alerta para a importância de estabelecer uma rotina e controlar a ansiedade, a fim de ter mais previsibilidade e conseguir conciliar a paternidade com as demandas do trabalho.


O mercado de trabalho proporciona a segurança necessária para você exercer a paternidade ativa?


Rafael de Paula aponta que ainda há muito o que mudar: “Eu ainda considero o mercado de tecnologia, de certa forma, bem machista. Tem um tom ainda bem patriarcal, de que toda responsabilidade de um filho é integralmente da mãe.”


E relembra o exemplo que deu no início do bate-papo, de quando pediu para trocar seu horário de trabalho: “O próprio dono da empresa disse: ‘ele tem mãe, ela pode muito bem ir lá pegar e levar ele para a escola’, e que se eu não estivesse satisfeito, outra pessoa poderia fazer meu trabalho.”


O engenheiro de software observa que, apesar de muitas empresas estarem mudando esse pensamento, ainda há muitas outras que não proporcionam a segurança necessária para que os pais possam exercer uma presença mais ativa na vida dos filhos: “Ainda temos um caminho de evolução, seja no mercado, seja como sociedade.”


Rafael de Paula ressalta a importância de saber se posicionar em relação à empresa e deixar de lado aquela velha definição de “pai pagador de contas”: “Nossos filhos precisam da nossa presença, da nossa afetividade.”


Ele ainda diz: “Eu sou uma dessas pessoas que achou na paternidade o maior papel da vida. Por isso eu tento, todos os dias, meio que quebrar esses modelos nocivos de paternidade que vem lá do passado.” E conclui:


“Por isso que eu sou um forte defensor da paternidade ativa, afetiva e presente. Não vejo outra forma viável. Se não houver afeto e presença, não é efetivamente uma paternidade, acredito eu.”

Almeida reforça o fato de que não são todas as empresas que entendem e colaboram com essa presença mais ativa por parte dos pais. Porém, para ele, a estabilidade profissional está muito relacionada à forma como cada um administra sua vida, considerando seus objetivos, sonhos, metas, e como isso reflete na vida da família:


“O que eu tento aqui em casa é sempre ponderar e entender se aquela escolha que eu estou fazendo está sendo positiva, não só para mim, mas também para a minha família.”


Ireno destaca a importância de se debater tais assuntos, chamando outras pessoas para participarem das conversas, com o objetivo de evoluir o pensamento e normalizar a questão, a fim de conquistar as mudanças necessárias para o avanço do tema.


E Knappe conclui: “Tenho certeza de que a paternidade ativa traz bons frutos na formação de bons cidadãos, pessoas que vão construir um mundo melhor.”


Quais aprendizados podemos tirar desta conversa?


Infelizmente, como podemos perceber, o exercício da paternidade ativa não é algo que depende apenas da vontade dos pais — apesar de muitas vezes isso ser o principal cerne da questão. Trata-se de uma questão complexa, que perpassa por uma sociedade que, em grande parte, ainda conserva uma visão antiquada da figura paterna, responsável apenas por prover o sustento ao lar.


Isso reflete na forma como muitas empresas são administradas, não reconhecendo tais direitos e privando os pais de um convívio mais próximo com seus filhos.


Isso, consequentemente, acaba sobrecarregando as mães, que acumulam funções, o que é utilizado por muitos para “justificar” o menor número de oportunidades para elas. Ou seja, trata-se de um círculo vicioso, responsável por retroalimentar a desigualdade de gênero no mercado de trabalho.


É nosso dever rever e desconstruir ideias ultrapassadas, a fim de quebrar paradigmas estruturais como esse, e passar a enxergar os pais como protagonistas, e não como meros coadjuvantes na educação dos filhos.


Contudo, cada vez mais vemos iniciativas dispostas a mudar essa realidade. Então, queremos saber de você, qual é o papel da paternidade ativa na sua vida pessoal e profissional? A companhia em que você atua favorece o convívio entre pais e filhos? A startup da qual você é líder já está criando políticas mais favoráveis de parentalidade? Quais estratégias já foram implementadas para o avanço desta pauta?


Compartilhe suas experiências e impressões sobre o assunto, e vamos juntos construir empresas com mais equidade e diversidade.


 

Esta foi mais uma pauta essencial discutida no nosso mês de DE&I. Mas, ainda temos muitos temas importantes para debater por aqui. Você pode acompanhar todos eles em nossa página: Especial Mês da Diversidade.


Caso tenha perdido a cobertura do painel anterior, você pode conferi-la aqui: Diversidade, Equidade e Inclusão como Valores das Organizações.


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