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  • Redação

LÍCIA SOUZA | "Mulheres empreendedoras escutam perguntas diferentes dos homens na hora do pitch"

"Enquanto os homens têm oportunidade de mostrar o potencial do seu negócio, mulheres ficam limitadas a tentar convencer os investidores de que as empresas delas não vão falir."



Uma pesquisa de 2021 mostrou que no Brasil, apenas 4,7% das startups são fundadas exclusivamente por mulheres.No entanto, essas startups receberam apenas 0,04% do volume total aportado em 2020. Mesmo quando olhamos para empresas co-fundadas - que também possuem homens entre seu quadro societário - a porcentagem ainda deixa a desejar: 5,1% das empresas.


Quando olhamos para o empreendedorismo tradicional - ou seja, empresas que não tem como core a tecnologia e inovação - esse percentual salta para 46,2%, o que demonstra como o ecossistema ainda é carente de presença feminina.


As barreiras são as mais diversas, com raízes no machismo estrutural. Falta de oportunidades e credibilidade, dificuldade de acessar certos espaços, sobrecarga e um ambiente extremamente masculinizado. Além de não se verem entre fundadores(as) de startups, as mulheres ainda não se veem também do outro lado da mesa do investimento. Entre 68 a 74% das VCs no Brasil são lideradas exclusivamente por homens.


Mas Lícia Souza quer mudar essa realidade. Originalmente advogada, ela passou de executiva a empreendedora e fundou a WE Impact, Venture Builder dedicada a mulheres líderes de startups, com o propósito de tornar o ecossistema mais inclusivo e inovador. Em 2022, foi eleita uma das 39 Women to Watch in the Latam CVC pela Global Corporate Venturing.


No mês em que celebramos o dia do empreendedorismo feminino, conversamos com a Lícia sobre a presença de mulheres no setor. A entrevista você confere a seguir!


MOVILE ORBIT - De onde veio a inspiração e o desejo de trabalhar pela causa feminina? Algum acontecimento muito marcante na sua trajetória que te fez virar a chave?


Comecei a flertar com o ecossistema de startups em 2016, quando passei a atuar como advisor jurídica da Bertha Capital, gestora de investimentos fundada pelo meu irmão. Mas foi só em 2018, quando engravidei e vi a segurança da minha carreira executiva ser colocada à prova, que me rendi ao empreendedorismo.


Foi um momento muito ruim e muito bom ao mesmo tempo. Quando as mulheres engravidam, diversas inseguranças passam pelas suas cabeças, como o medo de serem descartadas pelo mercado de trabalho. E essa é só uma amostra do quanto é mais difícil se firmar profissionalmente sendo mulher.


O desejo de trabalhar pela causa feminina veio da indignação de uma conta que não fecha: as mulheres representam 50% da população, portanto, devem ter representatividade em lugares de tomada de decisão e em espaços tradicionalmente ocupados por homens. Isso gera uma realidade mais justa, inovação real, maiores lucros e benefícios para toda a sociedade: uma maior participação feminina no mercado e em cargos de ​liderança geraria aumento de até US$ 12 trilhões no PIB global até 2025.


Assim, nasceu a WE Impact, primeira venture builder dedicada a startups fundadas e lideradas por mulheres.


Entendemos que o empreendedorismo é uma forma de mudar essa baixa participação feminina no mercado de trabalho e na tecnologia, já que, quando mulheres lideram e podem criar seus próprios negócios, há um efeito em cadeia para o restante da empresa: elas são naturalmente mais propensas a contratarem outras mulheres e também servem como inspiração para que elas sintam que podem pertencer àquele ambiente.


Quando incentivamos esse empreendedorismo feminino em tecnologia, estamos falando do mercado que acelera avanços em todo o mundo, mais que qualquer outro, e por isso pode mais rapidamente ajudar a transformar a realidade atual.


Startups têm uma estrutura enxuta, totalmente focada no crescimento rápido, em escala. Elas têm potencial para se tornarem as grandes empresas do futuro. Se conseguimos estimular a diversidade e a equidade de gênero nessas empresas desde o início, aceleramos o processo de transformação do mercado de trabalho e da sociedade como um todo em ambientes mais inclusivos, igualitários e inovadores.



MOVILE ORBIT - Olhando tanto para os fundos quanto para as startups comandadas por mulheres - o que você acha que falta em cada um dos lados? Por que mulheres não conseguem investimentos e por que fundos não conseguem investir em mais negócios comandados por mulheres?


Seja em startups ou em fundos de investimentos, a falta de representatividade feminina acaba retroalimentando a desigualdade em um ciclo vicioso.

Nesse sentido, gostaria de citar um tipo de viés inconsciente (ou seja, uma norma social não escrita, mas que faz parte do imaginário coletivo): o viés de “afinidade”. Ele provoca uma tendência de avaliarmos melhor pessoas que se parecem conosco. Considerando que só 8% dos fundos de Venture Capital na América Latina têm mulheres na liderança (IFC), esse é um viés que interfere bastante nas decisões de investimento, contribuindo para a dificuldade de acesso a capital por empreendedoras mulheres.


Um estudo do Harvard Business Review ajuda a entender como essa influência se dá na prática: mulheres empreendedoras escutam perguntas diferentes dos homens na hora do pitch. Primeiro, diferenças mais gritantes, como “quem vai ficar com os seus filhos?”, “você vai conseguir administrar a sua casa e a sua empresa?”


Mas também diferenças sutis – o estudo mostrou que mulheres recebem muito mais perguntas preventivas (“como é que você vai conquistar clientes?" "Você tem previsibilidade no seu fluxo de caixa?”), enquanto homens recebem mais perguntas promotoras (“ quais são suas metas?” e “quais são seus planos daqui pra frente?”)


Ou seja, enquanto os homens têm oportunidade de mostrar o potencial do seu negócio, as mulheres ficam limitadas, basicamente, a tentar convencer os investidores de que as empresas delas não vão falir.

Na outra ponta, segundo o relatório “Catalisando a igualdade”, há alguns desencontros entre o perfil de startups lideradas por mulheres e o que alguns players do ecossistema de investimentos buscam, como o tamanho e fase dos negócios:


  • Os meios de financiamento mais comuns são, na maioria das vezes, caros e inacessíveis para muitas pequenas e médias empresas lideradas por mulheres.

  • De acordo com o Female Founders Report, mais de 50% das startups fundadas por mulheres estão em fase de MVP ou início de operação, enquanto muitos VCs buscam produtos prontos para realizar o investimento, especialmente nos setores de tecnologia e finanças, o que também acaba afastando as fundadoras das instituições de investimentos tradicionais.


Isso cria um contexto em que apenas 1/3 dos investimentos vão para startups com fundadoras mulheres, ainda que essas mesmas startups gerem maior retorno: para cada dólar de investimento levantado, mulheres geram 78 centavos de receita, enquanto as geridas por homens geram 31 centavos (Boston Consulting Group).


Na minha opinião, a solução para esse problema, que é sistêmico e começa muito antes da criação dos negócios em si, é criar metas para uma maior participação de mulheres nos fundos de investimentos e combinar ações intencionais de investimentos com lente de gênero a um forte trabalho de desenvolvimento de negócios com foco na jornada de mulheres empreendedoras, criando um contexto propício para impulsionar uma próxima geração de mulheres empresárias e líderes.


Fizemos esse movimento em 2020, nosso primeiro ano completo de operação, com a promoção de dois programas, um de desenvolvimento e outro de ideação, que contemplaram mais de 70 mulheres empreendedoras. Reunimos alguns dos resultados e depoimentos aqui.


Nossa metodologia de gestão de portfólio também é 100% focada na educação e instrumentalização para que as startups investidas tenham sucesso na sua jornada e cheguem às próximas rodadas de captação.



MOVILE ORBIT - Sabemos que o acesso de mulheres a carreiras de tecnologia e a cargos de gestão passa por diversas barreiras sócio-culturais. Mas olhando além delas, se tivesse que listar três principais entraves hoje para termos mais mulheres à frente dos negócios de tecnologia, quais seriam? Por que elas desistem ou nem começam?


1. Crenças limitantes sobre tecnologia e liderança com base em estereótipos:


Quem nunca ouviu que “tecnologia não é coisa de mulher”? É uma área associada ao masculino, e realmente ainda há uma maioria de homens nos cursos de tecnologia e atuando no mercado.


O mesmo vale para posições de liderança. Em pesquisa do Pnud de 2020, 40% das pessoas avaliaram que os homens são CEOs superiores.


Esse tipo de norma social implícita desencoraja mulheres a entrarem nesse ecossistema e criarem seus próprios negócios.


2. A lógica seguida por esse mercado também tende a afastar mulheres: frases como “trabalhe enquanto eles dormem” ainda são bastante presentes e não se encaixam na rotina de uma mulher que tem dupla ou tripla jornada de trabalho, por exemplo.


De acordo com a Pnad Contínua, referente a 2019, as mulheres que trabalham dedicam em média mais de 8 horas a mais que homens para afazeres domésticos e cuidados de pessoas da família, especialmente os filhos. Essa estrutura que coloca a produtividade à frente do bem-estar é insustentável para qualquer pessoa, mas principalmente para mulheres.


3. Baixa representatividade: e, mais uma vez, o fato de haver uma baixíssima representatividade nesse ecossistema (apenas 9,8% das startups têm fundadoras mulheres, e uma pequena parte delas é da área de tecnologia) também afasta as mulheres desses ambientes.


Elas pensam duas vezes antes de se candidatar a uma vaga ou iniciar um negócio nessas áreas, e quando já estão lá, são botadas à prova a todo momento e começam a se perguntar se deveriam estar ali. Por isso, amplificar vozes, criar uma rede de apoio e compartilhar casos de sucesso de outras mulheres, assim como fazemos aqui na WE Impact, é tão importante.



MOVILE ORBIT - Como você enxerga essa mesma questão quando falamos de interseccionalidades? (gênero, raça, orientação sexual, entre outros)


Quando falamos da interseccionalidade, todas essas questões são ainda mais intensificadas. Dados do relatório Female Founder 2021 indicam que, no ecossistema de tecnologia e inovação, os vieses inconsciente e baixa representatividade são maiores: o perfil das fundadoras e cofundadoras é composto basicamente por mulheres heterossexuais (87,5%) e brancas (76,7%). É muito difícil acreditar que esse ecossistema não reforce estereótipos e se torne convidativo para integrantes de grupos minorizados diante desses dados.


Na cartilha “7 Princípios de Empoderamento das Mulheres para Startups”, produzida pela WE Impact em parceria com a Gema Consultoria e ONUMulheres, chamamos atenção para como levar em consideração as diferenças presentes dentro do gênero feminino, como raça, classe, deficiência e orientação sexual, é fundamental para promoção da diversidade e da verdadeira equidade dentro das startups.



MOVILE ORBIT - Assim como a Movile, a WE Impact além de investir em startups, também trabalha na aceleração dessas empresas após o aporte. Com toda a experiência de vocês nessa jornada, quais são os principais gaps de conhecimento de fundadoras e diretoras que precisam ser sanados? Existe algum padrão que vocês sempre percebem?


Um grande gap que percebemos é mesmo na hora da captação. No processo, precificação, cálculo de valuation etc.


Dúvidas sobre como vender o produto (proposta de valor) e/ou qual a verdadeira dor do mercado também são comuns, assim como dificuldade de captação de novas rodadas de investimentos


Acho importante não reforçar estereótipos, mas também existem gaps de soft skills:

- Atitude livre de síndrome da impostora: fazer a transição de fundadora para executiva de sua própria empresa.


- Dificuldade em pedir ajuda e demonstrar fragilidade: as fundadoras tendem a resolver tudo sozinhas, visto que sistemicamente são julgadas por falhar.



MOVILE ORBIT - De forma prática, como empresas e fundos podem começar amanhã a colocar em prática um olhar mais focado para empreendimentos femininos?


O primeiro ponto é a intencionalidade: ter a real intenção e manter o engajamento em todas as etapas, não se pode apenas dizer “nós procuramos e não encontramos nenhum negócio que se adequa aos nossos critérios”.

Outro ponto importante é fazer um compromisso público e sempre se apoiar em estratégias e metas específicas. Isso ajuda a manter o engajamento, motiva outros fundos e instituições de investimentos a fazer o mesmo e pode trazer poderosos aliados e aliados para sua jornada.


Além disso, é importante mensurar todo o processo, como em qualquer outro objetivo da instituição. Somente 38% dos investidores fizeram uma análise de gênero no desempenho empresarial de suas empresas investidas. E essa ação é extremamente importante para termos consistência dos lucros.



MOVILE ORBIT - Além de investir nessas mulheres, você também é uma mulher à frente de uma área historicamente masculinizada. O que a Lícia de 2022 teria dado de conselho para a Lícia de vinte anos atrás?


Apoie outras mulheres HOJE.


MOVILE ORBIT - Por fim, qual seu maior sonho no médio/longo prazo?


Meu maior sonho é ver minha filha, Julia, de 4 anos, adulta, feliz e realizada. E, para isso, luto todos os dias para acelerar a transformação e tornar o mundo um ambiente mais propício para ela e outras mulheres.


 


 

Redação Movile Orbit
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