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Embedded Finance, a nova onda do mercado financeiro

Por Daniel Bergman




No mundo das finanças, a novidade é ponto comum: novos conceitos, regras e players surgem o tempo todo. É um universo dinâmico e complexo, ainda mais quando aplicado a um país de dimensões continentais e com realidades bem distintas como o Brasil. Isso pode soar como “chover no molhado”, mas acho importante essa introdução porque ela nos leva a falar de pessoas. Muitas vezes, me parece que quando tratamos de temas financeiros, estamos falando exclusivamente de números, projeções, expectativas e resultados, e acabamos nos distanciando deste que é o principal motivador de todas essas mudanças: o ser humano.


Dentro do contexto nacional, esse “descolamento” do sistema financeiro com a população se mostra em um dado recente levantado pelo Instituto Locomotiva em que 34 milhões de brasileiros não têm conta bancária ou a utilizam com pouca frequência. Se considerarmos que a população adulta é de cerca de 160 milhões de pessoas, 21% desse total não estão inseridos no sistema.


E, embora a pandemia tenha acelerado a digitalização de processos e serviços, como os meios de pagamentos, por exemplo, é necessário promover uma inclusão financeira de fato, uma vez que muitos brasileiros não possuem o conhecimento necessário para usufruir dos produtos disponíveis no mercado. Vale aqui reforçar que, quando falamos em inclusão financeira, não nos referimos apenas a ter uma conta bancária. Ela compreende três dimensões: acesso, uso e qualidade. Não que atendê-la seja a resposta para todos os problemas, mas com certeza contribuirá significativamente para o aumento do bem-estar e do benefício proporcionado aos cidadãos por meio de serviços como crédito, poupança e seguros, entre outros.


É justamente aí que entra o embedded finance. A próxima grande expansão no mercado de meios de pagamento já se dá por meio de serviços financeiros embutidos na jornada do usuário. Para que isso ocorra, é fundamental dar capacidade de distribuição de soluções financeiras a empresas que não necessariamente atuam nesse setor. Ou seja, possibilitar que organizações de consumo e varejo, por exemplo, ofereçam produtos e soluções financeiras específicas devido ao relacionamento que já possuem com a sua base de clientes.


Além das varejistas, outro setor em que o conceito de embedded finance pode ser implementado são os aplicativos de entrega, como o que temos dentro de casa. Aqui na MovilePay – e agora abrindo um parêntesis para localizar quem nos lê, somos responsáveis pelas contas digitais do iFood - por termos um forte relacionamento com nossos clientes empreendedores, aprovamos até quatro vezes mais crédito para os estabelecimentos com os quais já possuímos relacionamento do que uma empresa que não faz parte da jornada dos nossos clientes. E esse é apenas um dos benefícios que a nova fronteira viabiliza.


O mercado de soluções financeiras pode e deve ser mais democrático. Nos últimos anos, houve um grande avanço. Prova disso é a penetração de pagamentos por cartão e, mais recentemente, via Pix, assim como o número de pessoas com conta em banco, como citei logo no início. Porém, ele pode contribuir ainda mais para a inclusão financeira dos brasileiros. E, quando uma empresa estabelece uma relação de confiança com o consumidor e passa a fazer parte de sua jornada, conhecendo profundamente o seu perfil, histórico e necessidades, consegue oferecer serviços e produtos que instituições que estão fora dela não têm condições, contribuindo assim não só para inclusão financeira da população, mas também para evolução do mercado.


Aqui vale mencionar ainda três fatores que já estão em andamento e vão ajudar a consolidar o embedded finance: o primeiro diz respeito às mudanças no órgão regulador. A partir do momento em que o Banco Central implementa inovações como o Pix e o Open Banking, ele coloca o usuário no centro da decisão - fator essencial para esse processo. Outro ponto inerente quando se fala em inovação é toda a tecnologia envolvida, como machine learning, inteligência artificial, biometria, entre outras. E, por fim, os investimentos constantes e necessários para que essa evolução aconteça.


Este é só o início da revolução 4.0 do setor financeiro. E para este movimento se aprimorar ainda mais, precisamos quebrar o paradigma de que serviços financeiros são burocráticos. Afinal, eles permitem que as pessoas desenvolvam seus negócios, tenham crédito, conveniência para ampliar as opções de pagamento sem depender exclusivamente do papel moeda, facilidade para fazer uma transação, além de possibilitar que escolham o melhor fornecedor para suas compras sem limite geográfico. Essa transformação é benéfica para a população e precisamos enxergá-la com bons olhos. E aí, prontos para a nova fronteira?



 

Daniel Bergman é CEO da MovilePay, fintech do Grupo Movile responsável pela conta digital iFood, desde 2020. Formado em Engenharia Civil pela UFPR (Universidade Federal do Paraná), especializado em Gestão de Negócios pela FGV e MBA em INSEAD, já atuou em empresas como Positivo Tecnologia, McKinsey e iZettle - recentemente adquirida pela PayPal. Com experiência em desenvolvimento de novos negócios em empresas de tecnologia e de meios de pagamento, Bergman está encarregado pela expansão e desenvolvimento da nova fintech do Grupo Movile.